É interessante lembrar que faz neste mês de abril 60 anos da excursão pioneira da Seleção Brasileira ao exterior. A CBD, antecessora da CBF, começava a costurar ali a conquista da sua primeira Copa do Mundo. Logo após o fracasso no Sul-Americano disputado no Uruguai, em fevereiro de 1956, a entidade dirigente do nosso futebol trocou de técnico, o gaúcho Oswaldo Brandão pelo carioca Flávio Costa, e promoveu a inédita “viagem de estudos à Europa”, proposta pelo novo comandante.

Flávio convenceu o presidente da CBD, Sylvio Correia Pacheco, que os principais jogadores do país  precisavam ganhar efetivamente maior experiência, enfrentando adversários fortes e tradicionais em seus domínios, e que iniciativa de tal porte poderia ainda ampliar a abertura do rico mercado do velho continente para os grandes clubes brasileiros.

Argumentou com sabedoria, o já então veterano treinador, 50 anos de idade, que a queda precoce no Mundial de 1954, realizado na Suíça, também ocorrera por causa do despreparo de craques e de cartolas. Resumindo, Flávio lembrou que havíamos sido sobretudo vulneráveis sob o ponto de vista emocional, com dificuldade para nos adaptarmos a ambientes de competição, e que os craques ora se perderam pelo excesso de entusiasmo, ora pelo medo, principalmente do grande time do torneio, a Hungria de Ferenc Puskas, que acabou de fato eliminando o Brasil, com vitória de 4 a 2 em Berna.

No dia 6 de abril de 1956, uma delegação integrada por 22 jogadores, além de Flávio e Pacheco, entre outros, embarcou num Constellation da Panair e seguiu rumo a Lisboa, primeira escala de uma excursão que representou o passo inicial para a consagração que viria dois anos mais tarde, na Suécia.

A excursão começou com a vitória de 1 a 0 sobre Portugal, graças a uma bicicleta de Gino Orlando, centroavante do São Paulo. “O Brasil nos venceu com um gol de tesoura”, explicaram os jornais locais. A passagem por Lisboa foi tranqüila, mas jogadores e dirigentes alimentaram o folclore. Em Viena, os cartolas invadiram o gramado para peitar o árbitro iugoslavo Mirko Romcevic, que anulara dois gols. Em Praga, a rapaziada divertiu-se a valer com a neve que se acumulava na porta do hotel, levando os seus funcionários e os turistas a um algum constrangimento. Em Istambul, houve quem exigisse o prato oferecido pelo maître, trutas, especialidade de um restaurante, “ao natural”. Em Londres, um atacante apareceu no salão reservado ao chá das cinco de dorso nu, trajando uma toalha enrolada na cintura, procurando sabão de coco para o banho.

No campo de jogo, enfim, até que a Seleção não se saiu tão mal. Suportou a nevasca em Zurique e em Praga, dobrou a pancadaria dos turcos, e aprendeu muito com as lições táticas que tomou nas derrotas para a Itália e a Inglaterra. O relatório formulado após a excursão levou a CBD a imaginar o plano de trabalho que seria posto em prática na Suécia. E que daria enfim ao Brasil o seu primeiro título mundial.

Vale lembrar que quando a delegação voou para Lisboa os dois maiores craques da história do nosso futebol ainda não freqüentavam a Seleção. Garrincha fizera apenas um jogo pela equipe, em setembro de 1955, 1 a 1 com o Chile, e Pelé era um ilustre desconhecido, além dos limites da cidade paulista de Bauru. É importante concluir lembrando que sete dos 22 jogadores que viajaram foram campeões mundiais em 1958: Gilmar, Djalma Santos, Nílton Santos, Oreco, De Sordi, Zózimo e Didi.

# Cabeção (Luis Moraes – São Paulo-SP, 23/8/30 – Sport Club Corinthians Paulista – SP / Goleiro)

# Gilmar (Gilmar dos Santos Neves – Santos-SP, 22/8/30 – São Paulo-SP, 25/8/13 – Sport Club Corinthians Paulista – SP / Goleiro)

# Djalma Santos (Djalma dos Santos – São Paulo-SP, 27/2/29 – Uberaba-MG, 23/7/13 – Associação Portuguesa dos Desportos – SP / lateral)

# Nílton Santos (Nílton dos Santos – Rio de Janeiro-RJ, 16/5/25 – Rio de Janeiro-RJ, 27/11/13 – Botafogo de Futebol e Regatas – RJ / lateral

# Oreco (Valdemar Rodrigues Martins – Santa Maria-RS, 13/6/32 – Ituverava-SP, 3/4/85 – Sport Club Internacional – RS / lateral)

# Paulinho de Almeida (Paulo de Almeida Ribeiro – Porto Alegre-RS, 15/4/32 – São Paulo-SP, 11/6/07 – Clube de Regatas Vasco da Gama – RJ / lateral)

# De Sordi (Newton de Sordi – Piracicaba-SP, 14/2/31 – Bandeirantes-PR, 24/8/13 – São Paulo Futebol Clube – SP / zagueiro)

# Pavão (Marcos Cortez – Santos-SP, 4/1/29 – Santos-SP, 7/5/06 – Clube de Regatas do Flamengo – RJ / zagueiro)

# Zózimo (Zózimo Alves Calazans – Salvador-BA, 19/6/32 – Rio de Janeiro-RJ, 17/7/77 – Bangu Atlético Clube – RJ / zagueiro)

# Dequinha (José Mendonça dos Santos – Mossoró-RN – 23/7/97 – Aracaju-SE, 23/7/97 – Clube de Regatas do Flamengo – RJ / apoiador)

# Didi (Valdir Pereira- Campos-RJ, 8/10/28 – Rio de Janeiro-RJ, 12/5/01 – Botafogo de Futebol e Regatas – RJ / apoiador)

# Formiga (Francisco Ferreira de Aguiar – Araxá-MG, 11/11/30 – Santos-SP, 22/5/12 – Santos Futebol Clube – SP / apoiador)

# Roberto Belangero (Roberto Belangero – São Paulo-SP, 28/6/28 – São Paulo-SP, 30/10/96 – Sport Club Corinthians Paulista – SP / apoiador

# Válter Marciano (Válter Marciano de Queiroz – São Paulo-SP, 15/9/31 – Valência-Espanha, 21/6/61 – Clube de Regatas Vasco da Gama – RJ / atacante

# Álvaro (Álvaro José Rodrigues Valente – Santos-SP, 24/9/31 – Santos Futebol Clube – SP / atacante

# Canhoteiro (José Ribamar de Oliveira – Coroatá-MA, 24/9/32 – São Paulo-SP, 16/8/74 – São Paulo Futebol Clube – SP / atacante

# Escurinho (Benedito Custódio Ferreira – Nova Lima-MG, 3/7/30 – Fluminense Football Club – RJ / atacante

# Evaristo (Evaristo de Macedo Filho – Rio de Janeiro-RJ, 2/6/33 – Clube de Regatas do Flamengo – RJ / atacante

# Gino Orlando (Gino Orlando – São Paulo-SP, 3/9/29 – São Paulo-SP, 26/4/03 – São Paulo Futebol Clube – SP / atacante

# Larry (Larry Pinto de Faria – Nova Friburgo-RJ, 3/11/32 – Sport Club Internacional – RS / atacante

# Paulinho (Paulo de Almeida – Campos dos Goytacazes-RJ, 15/9/33 – Campos dos Goytacazes-RJ, 9/11/13 – Clube de Regatas do Flamengo – RJ / atacante

# Sabará (Onofre Anacleto de Souza – Atibaia-SP, 18/6/31 – Rio de Janeiro-RJ, 8/10/97 – Clube de Regatas Vasco da Gama – RJ / atacante

#. Acompanharam oficialmente a excursão os locutores Luís Mendes,  Oduvaldo Cozzi e Pedro Luís Paolielo e os repórteres Geraldo Romualdo da Silva e Indaiassu Leite.

# 1 a 0 Portugal (8/4 – Estádio Nacional, em Lisboa – Gino Orlando)

# 1 a 1 Suíça (11/4 – Estádio Hardtum, em Zurique – De Sordi-contra e Gino Orlando)

# 3 a 2 Áustria (15/4 – Estádio Prater, em Viena – Gino Orlando, Zózimo e Didi / Rudolf Sabetzer 2)

# 0 a 0 Tchecoslováquia (21/4 – Estádio Armady, em Praga)

# 0 a 3 Itália (25/4 – Estádio San Siro, em Milão – De Sordi-contra e Giuseppe Virgilli 2)

# 1 a 0 Turquia (1/5 – Estádio Mihatpasa, em Istambul – Djalma Santos)

# 2 a 4 Inglaterra (9/5 – Estádio Wembley, em Londres – Paulinho e Didi / Colin Grainger 2 e Thomas Taylor 2)

  • Jogos – 7
  • Vitórias – 3
  • Empates – 2
  • Derrotas – 2 
  • Gols pró – 8
  • Média – 1,14
  • Gols contra – 10
  • Média – 1,42

 

Foto: 1956 – Brasil 1 x Portugal 0 – Amistoso em Lisboa.
Em pé: Djalma Santos. Desordi. Nilton Santos. Gilmar. Zózimo e Roberto Balagero.
Agachados:Ma\rio Américo. Sabará. Walter. Gino. Didi. Canhoteiro e Mão de Pilão. (fonte: reprodução de museudosesportes.blogspot.com.br)