O esporte, principalmente o futebol, começou a ganhar seu lugar na telinha ainda na primeira metade da década de 1950, inclusive com transmissões ao vivo, com raros recursos, e com cortes frequentes provocados pela queda de sinal

E é preciso destacar também que não existia TV em rede, ou seja, não era possível transmitir a programação de forma simultânea para todo o país

Dali em diante, não haveria mais nenhuma possibilidade de ocorrer divórcio entre TV e esporte. E o casamento ficou ainda mais sólido a partir de 1994, quando as emissoras a cabo – ou por assinatura – começaram a surgir

A história da televisão no Brasil começou no dia 18 de setembro de 1950, quando o jornalista e empresário Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários Associados, inaugurou a primeira emissora do país, a Tupi, de São Paulo. No início, a trajetória obedeceu a um círculo vicioso: os aparelhos, importados dos EUA, custavam uma fortuna, e eram raros os que podiam comprá-lo.

Logo, se apenas uma quantidade ínfima de pessoas assistia, era complicado amealhar anunciantes. Assim, era mais difícil ainda manter a TV no ar, o que só ocorreu porque Chateaubriand, um autêntico poço de vaidades, decidiu bancá-la com os recursos que vinham de seus jornais, revistas e emissoras de rádio, espalhados pelo Brasil inteiro. Em troca, é claro, teria a médio prazo, quando a TV passasse a vingar para valer, mais visibilidade e poder, e mais, entrar, como ocorreu, definitivamente para a história, como pioneiro e empreendedor.

O esporte, principalmente o futebol, começou a ganhar seu lugar na telinha ainda na primeira metade da década de 1950, inclusive com transmissões ao vivo, com raros recursos, e com cortes frequentes provocados pela queda de sinal. Com o surgimento do vídeo teipe, que não existia no país até 1958, o espaço de pelo menos mais três atividades, o basquete, o boxe e o turfe, aumentou. A popularidade da TV só passou a ter representatividade quando surgiu a venda de aparelhos a crédito, em suaves prestações, como se dizia na época. Há uma estimativa de que existiam 300 mil aparelhos no Brasil no ano de 1960, número modesto, levando-se em conta que a população era de cerca de 45 milhões de habitantes.

Vale lembrar que as emissoras eram poucas. No Rio, por exemplo, até a metade daquela década, havia, além da Tupi carioca, inaugurada em 1951, a Continental, a Excelsior e a Rio. Em São Paulo, a Tupi paulista, a Record e a Cultura. Aqui, um parênteses: é importante explicar que o pacote de títulos conquistados pelo Brasil entre 1958 e 1966 também ajudou a ampliar efetivamente o espaço do esporte na mídia em geral.

No basquete, a seleção masculina levantou os títulos mundiais de 1959, no Chile, e de 1963, no Rio de Janeiro, e as medalhas de bronze nas Olimpíadas de 1960, em Roma, e de 1964, em Tóquio. No tênis, a paulista Maria Esther Bueno conquistou sete títulos de Grand Slam: Wimbledon em 1959, 1960 e 1964, e Aberto dos EUA em 1959, 1963, 1964 e 1966. No boxe, Éder Jofre foi campeão mundial, na categoria peso-galo, nocauteando o mexicano Eloy Sanchez, em 1960. No futebol, o Santos conquistou dois bicampeonatos, o da Libertadores e do Mundial em 1962 e 1963, com destaque para Pelé, e a Seleção Brasileira ganhou a Copa do Mundo de 1962, no Chile, consagrando Garrincha.

E é preciso destacar também que não existia TV em rede, ou seja, não era possível transmitir a programação de forma simultânea para todo o país. A Globo entrou no ar em 26 de abril de 1965, com sede no Rio, provocando uma revolução no meio, pois era fruto de uma sociedade com o então poderoso grupo norte-americano Time-Life, o que lhe conferiu não só suporte financeiro, mas o apoio técnico de pessoal, além de diversos equipamentos de primeira linha, o que a levou, num espaço de quatro anos, a superar a concorrência.

Mas o passo decisivo para tornar a TV uma realidade definitiva ocorreu em 1969, quando o Governo Militar inaugurou a estação terrena de rastreamento via satélite, no município de Itaboraí, no antigo Estado do Rio. A primeira transmissão do Intelsat III, a cargo da Empresa Brasileira de Telecomunicações – Embratel e de um pool formado pelas televisões Globo e Tupi, permitia acompanhar ao vivo eventos realizados no Brasil e no exterior. Já foi possível, por exemplo, acompanhar a Copa do Mundo de 1970 ao vivo, embora ainda em preto e branco.

Sim, pois até 1958, os brasileiros acompanharam os torneios pelo rádio e só viram imagens por meio de filmes de curta duração exibidos na TV e nos cinemas, nos chamados jornais da tela. Em 1962 e em 1966, os teipes – das partidas inteiras – chegavam no dia seguinte. A cor chegou ao Brasil em 1972. Logo, de 1974 em diante, os Mundiais foram assistidos com todo o esplendor, incluindo aí jogos de outras seleções. Mas é necessário ressaltar que as emissoras não se interessavam muito em mostrar competições de outros esportes, alegando que não havia audiência para tal. E só passou a fazê-lo – provas esporádicas, de maior importância para nós – das Olimpíadas de 1980, em Moscou, em diante. Justiça seja feita, a Globo mostra as corridas de Fórmula 1 desde 1972.

Voltando um pouquinho no tempo, é fundamental explicar que o casamento definitivo e indissolúvel da TV com o esporte, em amplo sentido, aconteceu a partir de 1975, quando o advogado Carlos Arthur Nuzman assumiu a presidência da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) e apresentou um projeto de gestão administrativa que classificou de “moderno e revolucionário”, e que consistia numa estratégia de marketing baseada em modelos vigentes na Europa e nos Estados Unidos com o objetivo de tornar a modalidade vencedora no cenário internacional em um período estimado de 10 anos.

A tal estratégia, em resumo, tinha como metas básicas: atrair as empresas para atuarem como parceiras da CBV, promovendo a profissionalização definitiva do vôlei, formando atletas e equipes de alto nível, em clubes e seleções, e bancando as competições; atrair as redes de TV para atuarem como veículos de propaganda das empresas, por intermédio da exposição de marcas nos uniformes dos atletas ou pelas placas publicitárias em torno das quadras; transformar as marcas das empresas em símbolos de um esporte que pretende ser vencedor.

Logo, Nuzman iniciou uma longa luta para derrubar os vetos determinados pelo Conselho Nacional de Desportos e que tornavam seus objetivos inviáveis, pelo menos a curto prazo. Sendo assim, aqui abriremos um novo e longo parênteses, para que se entenda melhor a situação: o chamado CND foi criado em abril de 1941 pelo Estado Novo imposto pelo presidente e ditador Getúlio Vargas, com o objetivo de “fixar os requisitos necessários à normatização (sic) e supervisão de confederações, federações, ligas, clubes e associações, além de orientar a prática dos esportes em todo o país”.

O teor do CND é inspirado em modelos semelhantes aos existentes na Alemanha nazista de Adolf Hitler e na Itália fascista de Benito Mussolini. O órgão reconhecia quatro tipos de organização do esporte: comunitária, estudantil, militar e classista, tendo a exclusividade de promover e aprovar todos os assuntos referentes às entidades. O Comitê Olímpico Brasileiro (COB), fundado em 1914, também se tornou subordinado ao Conselho. Como curiosidade, eis algumas determinações do órgão, transcritos do seu teor: “É vedada a atividade de intermediários com fins lucrativos junto às entidades”. “É vedado o uso de marcas ou propaganda nos uniformes dos atletas”. “É vedada a participação de entidades classistas em competições oficiais”. “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, como beisebol, futebol de campo, de praia ou de salão, halterofilismo, lutas em geral e pólo aquático. O ciclismo, o críquete, a natação, o tênis e o voleibol poderão ser praticados, desde que moderadamente”. Inacreditável, porém rigorosamente verdadeiro.

Tudo isso ainda estava em vigor na década de 1970. A luta de Nuzman só começou a vingar de fato em março de 1980, quando o CND anunciou a deliberação número 3/80, regulamentando a participação das associações classistas nos campeonatos oficiais das entidades. Destacaram-se nesse princípio, a seguradora Atlântica Boavista e a indústria de pneus Pirelli. As empresas passam a ter grande exposição de suas marcas na mídia, principalmente na TV, e ainda são beneficiadas com abatimentos no Imposto de Renda. Em agosto de 1981, o órgão “normativo” anunciou a deliberação 14/81, regulamentando a utilização da propaganda no uniforme do vôlei e do próprio esporte amador. As regras eram rígidas: restrita a clubes e a seleções estaduais, respeitando o espaço de 10 centímetros de altura e 25 de largura, proibindo a exposição de fumo, bebida e de qualquer jogo de azar.

Em maio de 1982, na esteira do vôlei, o futebol também foi enfim beneficiado: o CND soltou a deliberação 5/82, regulamentando a utilização da propaganda no uniforme dos times de futebol, com as mesmas regras rígidas aplicadas ao esporte amador. Com o apoio das empresas na formação de atletas e de equipes, a seleção brasileira de vôlei obteve a sua primeira grande vitória, o vice campeonato no Campeonato Mundial masculino realizado na Argentina, perdendo a final para a poderosíssima e praticamente imbatível União Soviética.

Dali em diante, não haveria mais nenhuma possibilidade de ocorrer divórcio entre TV e esporte. E o casamento ficou ainda mais sólido a partir de 1994, quando as emissoras a cabo – ou por assinatura – começaram a surgir. As primeiras foram o Sportv, das Organizações Globo, lançado em 1991 com o nome de Topsports, e a ESPN Brasil, filial da norte-americana Entertainment and Sports Programming Network – na língua portuguesa Rede de Programação de Esportes e Entretenimento – de propriedade da sociedade entre as empresas Walt Disney Company e da Hearst Corporation, ambas dos EUA, essa última fundada pelo falecido milionário William Randolph Hearst na década de 1920.

Em 1997, o Sportv ganhou um filhote, os Canais Première, que transmitem futebol e MMA. Em 2003, mais um, o Sportv 2. A Bandsports, do Grupo Bandeirantes, está no ar desde 2002. E a Fox Sports, da também norte-americana Fox Entertainment Corporation, desde 2012. O Esporte Interativo, criado em 2007, é hoje de propriedade da Turner Broadcasting System. Foi lentamente ganhando espaço, e hoje trabalha em UHF, satélites e desde 2016 por operadoras de TV. Tem a exclusividade da Liga dos Campeões da Europa.

Todas as emissoras permanecem no ar 24 horas e têm uma infinidade de transmissões ao vivo, o que fez muitos dos demais esportes – além do futebol – ganharem popularidade, inclusive o tênis, que ninguém via pela TV, porque a duração de muitas partidas é excessivamente longa, e sem previsão de tempo, invadindo os horários das demais atrações, provocando conflitos entre as emissoras, os anunciantes e os telespectadores.

Hoje, aliás, e graças à impressionante evolução da tecnologia, os programas podem ser assistidos através da internet por computador, celular, tablet e wi-fi. Mas tudo começou em 1950, com Chateaubriand e os aparelhos grandes e pesados, importados dos EUA.