Havia na Tribuna da Imprensa uma espécie de xerife, cuja função era, digamos, administrar a sede do jornal, resolver enfim todos os problemas que surgissem no cotidiano, utilizando os meios que julgava necessários, e em sua visão, corretos.

O cidadão em questão atendia pelo nome de Pardal. Contava cerca de 50 anos de idade e trabalhava – de camiseta regata, bermudão e chinelos – por lá desde menino. Como os patrões não estavam presentes diariamente, a criatura tinha quase sempre carta branca para tomar decisões, sem consultá-los. Só não interferia na linha editorial, embora vez por outra sugerisse matérias e apresentasse opiniões, em algumas ocasiões as mais esdrúxulas que se possa imaginar.

A Tribuna funcionava em um prédio centenário de três andares, do tempo do Império, na Rua do Lavradio. Ainda está lá. Mas pode cair a qualquer momento. Houve uma época em que a redação não tinha ar refrigerado. Os janelões, é claro, permaneciam escancarados dia e noite. E a construção antiga apresentava um teto de duas superfícies, o suficiente para permitir que uma família oportunista de pombos estabelecesse residência. Os bichinhos faziam barulho, e muito pior, sujavam o chão e as mesas com as suas necessidades.

Um belo dia, os jornalistas formaram uma comissão e levaram a questão ao Pardal, que já ouvira, é evidente, queixas semelhantes, sem tomar qualquer providência. De mau humor, e diante do aparato oficial, que ameaçava telefonar para o patrão, o zeloso administrador levantou, sacudiu o barrigão, ajeitou o bermudão para evitar que o cofrinho ficasse à mostra, e se dirigiu à redação, disposto a matar ou morrer.

Lá chegando, Pardal sacou seu Taurus 38 e descarregou sem dó todas as balas na direção dos bichinhos, que despencaram sem vida. “Eles são parentes, eles que se entendam”, comentou Napoleão, o contínuo folclórico – que em breve merecerá espaço por aqui – e que ficou responsável pela remoção dos corpos. “Pronto. O problema está resolvido. Esses não incomodam mais”, fechou questão o autor dos tiros, às gargalhadas, diante dos olhos arregalados e estáticos de duas mocinhas educadas e bem vestidas, que no dia seguinte preferiram abreviar os estágios que cumpriam na Tribuna, com receio de que o xerife voltasse a fazer justiça em dimensão maior, com seres humanos, por exemplo.

Uma semana mais tarde, de fato, Pardal voltou a utilizar os serviços do “três-oitão”, furando os quatro pneus do Chevette de um prestador de serviços que havia estacionado na porta da velha sede da Lavradio, sem perceber que a vaga que ocupou era reservada ao carro de reportagem do jornal.  Mas essa já é uma outra história.




Lá chegando, Pardal sacou seu Taurus 38 e descarregou sem dó todas as balas na direção dos bichinhos, que despencaram sem vida. “Eles são parentes, eles que se entendam”, comentou Napoleão, o contínuo folclórico – que em breve merecerá espaço por aqui – e que ficou responsável pela remoção dos corpos