Antes da partida entre o São Cristóvão e o Santos, que chegou de São Paulo de trem, pela manhã, houve uma corrida rasa de 100 metros, competições de esgrima e luta romana, e uma preliminar amistosa entre o extinto Palmeiras Atlético Clube, então campeão carioca da Terceira Divisão, e o segundo time do clube anfitrião




Leia a curiosa descrição da inauguração pelos jornais de 1916

Lembra Tande Biar (@TandeBiar), leitor atento do site, que a inauguração do estádio do São Cristóvão completa 100 anos no próximo sábado, 23 de abril. Foi um acontecimento extraordinário para o Rio de Janeiro da época, tanto que pelo menos um dos grandes jornais da cidade, “O Imparcial”, dedicou a primeira página inteira ao fato, algo raro num tempo em que o futebol era essencialmente amador, e não tinha nem de longe a importância dos dias de hoje. A festa reuniu cerca de oito mil pessoas – não há registro de um número exato de espectadores – e deixou evidente, como vocês terão oportunidade de ver aqui, que o esporte importado da Inglaterra já era capaz de fabricar fanáticos.

O “festival”, como se dizia, começou às 14 horas de um belíssimo domingo de sol, como se nota nas fotos publicadas pela imprensa. Antes da partida entre o São Cristóvão e o Santos, que chegou de São Paulo de trem, pela manhã, houve uma corrida rasa de 100 metros, competições de esgrima e luta romana, e uma preliminar amistosa entre o extinto Palmeiras Atlético Clube, então campeão carioca da Terceira Divisão, e o segundo time do clube anfitrião.

O problema é que parte da platéia, revoltada com erros de arbitragem que prejudicaram a equipe da casa, obrigaram o juiz Osny Werner a encerrar o jogo aos 23 minutos do segundo tempo, para evitar o pior, como mostram as reportagens, no português rebuscado do começo do Século XX. “A festa de hontem no espaçoso Field da Rua Figueira de Mello iniciou-se sob uma atmosphera de alegria e cordialidade, terminando, infelizmente, por uma série de incidentes desagradáveis, em confronto com a assistência fina que enchia litteralmente as archibancadas”, registrou a “Gazeta de Notícias”, completando. “Houve balbúrdia, discussões, reclamações enérgicas, em altas vozes, de todos os cantos da valorosa praça de sports”.

“O Paiz” descreve com maiores detalhes o que levou o público a sair definitivamente do sério. “Pouco antes de terminar o match, um dos jogadores santistas deteve a esphera de couro com o auxílio de ambas as mãos, sobre a área. O referee deixou de consignar o penalty, dando ocasião a que protestos se acentuassem sobre a sua pessoa, e seguiram-se factos degradantes para o nosso meio sportivo”, destacou o jornal, fechando a crônica com um comentário para lá de curioso, levando-se em conta o que ocorre dentro e fora dos estádios atualmente. “Qualquer que seja a decisão do referee é final. Assim, aproveitamos para lembrar o  chefe de Polícia que os campos de football estão hoje em dia na mesma classificação dos redondéis de touradas. É necessária desde já uma extrema medida”, destacou o diário. Sim havia “corrida de touros” em duas arenas do Rio.

“O Imparcial”, que fez da partida a principal matéria da sua edição de segunda-feira, dia 25, ressaltou que o próprio auxiliar que acompanhava o ataque quando ocorreu o tal pênalti ignorado pelo árbitro fez questão de mostrar a sua revolta. Inacreditável, mas rigorosamente verdadeiro, como conta o jornal. “O attrahente festival offerecido pelo São Christóvão terminou de modo vergonhoso para nós, cariocas, dado que o próprio linesman, não se conformando coma decisão do juiz, procedeu do modo mais incorrecto, chegando mesmo a rasgar publicamente a bandeira que empunhava”. Os auxiliares de arbitragem eram chamados de linesman, traduzindo, homens de linha. Não há registro para o nome do autor da façanha.

Vale explicar que o amistoso entre São Cristóvão e Santos terminou empatado por 1 a 1, gols de Heitor Pinheiro, conhecido por “Leão”, para o time carioca, e Adolpho Millon Júnior, o Millon, para o paulista. O “Jornal do Brasil” mencionou igualmente o clima de festa. “Foi  um acontecimento notável, dada a concurrencia de pessoas do mais alto conceito da vida mundana do Rio”. Quanto ao jogo, preferiu ressaltar que o “terreno estava pesadíssimo, graças à abundante  chuva de sexta-feira, o que prejudicou sem dúvida o estylo de jogo dos dous quadros, que não podiam por em prática os passes ligeiros e calculados”. O JB, aliás, também criticou Osny Werner. “A escolha do referee foi infeliz, dadas as conseqüências de sua atuação desastradíssima”. Pois é. O juiz terminou a partida aos 23 minutos do segundo tempo, numa época em que os “matches” tinham dois tempos de 40.

O estádio do São Cristóvão de Futebol e Regatas adotou, no Século XXI, o nome do maior jogador da história do clube, Ronaldo Nazário de Lima, o Ronaldo Fenômeno. E o time está na Série B do Rio. Ficou em sétimo lugar, em nove concorrentes, no Grupo A da Taça Santos Dumont, o primeiro turno do campeonato, com 12 pontos, a oito do Itaboraí, que terminou na liderança. Melhores dias virão.

São Cristóvão: Cardoso, Moitinho e Portocarrero; Azevedo, João Cantuária e Lewerett; Pederneiras, Leão Pinheiro, Salema, João Rollo e Sylvio Fortes.

Santos: Benedito, Américo e Cícero; Oscar Bastos, Pereira e Alcides; Millon, Marba, Tedesco, Araken Patusca e Arnaldo Silveira.