Três dias depois, o braço direito e as duas pernas superaram a arrebentação e deram na areia. “Caso da Barra: faltam a perna esquerda e a cabeça”, deu a UH no alto da primeira página

E lá vamos nós com outra historinha dos tempos da Última Hora. Elas não faltarão aqui. Repetindo: houve uma época na qual os jornais chamados sensacionalistas ilustravam suas primeiras páginas com três irresistíveis atrações: o crime bárbaro, as mulheres seminuas e o futebol. Esses dois últimos sobreviveram. Mas o primeiro deles se tornou tão banal que acabou sendo substituído pelas fofocas, envolvendo principalmente artistas e protagonistas do intolerável BBB.

Assim, no começo de uma tarde qualquer, Barbalho, o maior chefe de reportagem de todos os tempos, me mandou para a delegacia da Barra da Tijuca, pois um cadáver mutilado – tinha apenas o tronco e o braço esquerdo – aparecera na praia de São Conrado. Hoje isso não teria a menor importância. Mas para a UH, naqueles tempos, era algo valioso.

Chegamos por lá, eu, o fotógrafo, é claro, e o folclórico motorista Carlão, quando o rabecão começava a recolher o dito cujo. Na 16ª DP, o inspetor explicou que “pelo jeitão” tratava-se de “elemento procurado”, e que “a rapaziada do IML” não tardaria a dar algum tipo de informação.

Na realidade, a matéria a ser redigida era sobre o nada. Mas as fotos valeram a manchete. “Homem de um braço só nadou, nadou, nadou. E morreu na praia”. Não, não havia qualquer piedade com a desgraça alheia.

Como fiz a cobertura do “achado”, Barbalho disse que a partir dali eu teria que acompanhar “o desdobramento do assunto”. Dito e feito. Para não tornar o relato longo, devo dizer que a equipe daquele dia, salvo o dia de folga de alguém, acompanhou de fato a trajetória do pobre e retalhado cadáver. Quando surgia alguma novidade o próprio pessoal da delegacia telefonava avisando.

Três dias depois, o braço direito e as duas pernas superaram a arrebentação e deram na areia. “Caso da Barra: faltam a perna esquerda e a cabeça”, deu a UH no alto da primeira página, ilustrando com fotos – para utilizar expressão comum na época – dos mesmos. Não havia mais censura. Mas a ditadura, em seus acordes finais, ainda assustava. Logo, não se falava do membro principal. Mas é óbvio que comecei a ser vítima disso na redação. “Você acha que ele também vai aparecer boiando? Pegaria nele, num esforço de reportagem, para auxiliar os trabalhos?”, perguntavam os companheiros. Não, não pegaria.

Num fim de tarde, quase noite, bate o telefone. Mais 15 minutos e eu sairia. Barbalho, meio sem jeito, olha para minha cara e emite a ordem. “Vai para a 16 correndo porque resgataram a cabeça do cara”. Que cara, perguntei, silenciosamente. Não haveria mais espaço para isso hoje. Mas é fato que chegamos na DP e lá estava a cabeça, coberta por um pano, como se uma autoridade fosse inaugurar, ali, algum monumento.

O delegado chegou, conferiu se não faltava ninguém da imprensa, e descobriu lentamente o troféu para o pipocar dos flashes, explicando de quebra que “o elemento” havia sido identificado. Tratava-se de uma criatura cujo nome de guerra era “Mata Rindo”, que dera “muito banho” no tráfico, e daí, ironia pouca é bobagem, “acabou no oceano”.

Tudo bem. Mas restava, como dito, o membro principal. Mas esse, é claro, nunca apareceu. As fotos da cabeça exposta, no entanto, renderam bem. Pois é. “Mata Rindo” nadou, nadou, nadou e morreu na praia.