Faz um quarto de século. Na extinta Tribuna da Imprensa, onde permaneci três anos, preciosos pela experiência de trabalho que ganhei, dada a precariedade do jornal, havia um repórter chamado Lobo, uma figura que não cabe mais nas redações austeras e polidas de hoje.

Ele conhecia todos os policiais do Rio. Tinha passe livre em delegacias e penitenciárias. E tomava todas. Mas cumpria as suas tarefas com correção. Num belo dia de sol do verão carioca, cheguei ao jornal por volta do meio-dia, suando em bicas, como se dizia, e dei de cara com um bode em carne e osso, um tanto assustado, é claro, amarrado com uma corda, vejam só, numa pesada Lettera 32.

Num belo dia de sol do verão carioca, cheguei ao jornal por volta do meio-dia, suando em bicas, como se dizia, e dei de cara com um bode em carne e osso, um tanto assustado, é claro, amarrado com uma corda, vejam só, numa pesada Lettera 32

Sim, um bode. Num primeiro momento, e o calor digno de deserto era tal que foi possível crer que o bicho era apenas uma miragem. No entanto, nada mais real. A criatura parecia até simpática. Ganhou água e comida, mas berrava sem parar, naquele ambiente completamente estranho. Lobo ganhou o bode de presente dos policiais, que haviam apreendido o animal dos traficantes do Morro de São Carlos, após uma “batida” que ocorrera pela manhã. Na realidade, Lobo preferia os cachorros. Mas cavalo dado não se olha os dentes.

A Tribuna funcionava num sobrado dos tempos do Império, da Rua do Lavradio, o prédio ainda está lá, caindo aos pedaços. O acesso ao segundo andar, onde ficava a redação, era por uma longa e apertada escada de tábuas, e o animal, é claro, teve alguma dificuldade em subi-la. Mas dada a urgência para escrever a reportagem, explicou Lobo, acabou sendo obrigado a arrastá-lo para lá, prometendo que quando fosse embora cuidaria de levá-lo para o seu sítio.

Por volta das seis da tarde, Lobo e o bode, esse adaptado a uma coleira de cachorro, arranjada de improviso, foram embora, mas o animal causara tal comoção que quase todo o pessoal, mesmo em pleno horário de fechamento da edição do dia seguinte, acompanhou a dupla até a rua, onde embarcou numa Kombi alugada na vila vizinha ao jornal, e partiu, aplaudida pela pequena multidão.

O bicho, batizado de Alceni – ministro em evidência na época – foi viver no interior. Lobo acabou vítima de sua fraqueza pela bebida. E o fato engrossou o rosário de tantos outros absolutamente bizarros registrados naquele diário tradicional, que 2011 saiu da vida para entrar na história.