Quando comecei no jornalismo, na primeira metade da década de 1980, trabalhei um ano na Última Hora, que teve grande importância na vida política brasileira, do segundo período presidencial de Getúlio Vargas – que criou efetivamente o jornal – ao golpe militar de 1964, mas que já havia entrado em franca decadência, quando cheguei por lá.

Dois rapazes de programas haviam esfaqueado um cidadão que morava sozinho num pequeno apartamento na Lapa, região central do Rio. O cadáver apresentava muitas perfurações. O cenário era assustador

Numa segunda-feira chuvosa de dezembro de 1984 fui designado para fazer uma reportagem sobre um terrível assassinato. Dois rapazes de programas haviam esfaqueado um cidadão que morava sozinho num pequeno apartamento na Lapa, região central do Rio. O cadáver apresentava muitas perfurações. O cenário era assustador. Mas rendia fotos excelentes para a linha editorial que a UH havia adotado, o badalado “espremeu sai sangue”, na impossibilidade de concorrer com O Globo e o JB.

Aqui, um breve parênteses. Houve uma época na qual os jornais chamados sensacionalistas ilustravam suas primeiras páginas com três irresistíveis atrações: o crime bárbaro, as mulheres seminuas e o futebol. Esses dois últimos sobreviveram. Mas o primeiro deles se tornou tão banal que acabou sendo substituído pelas fofocas, envolvendo principalmente artistas e protagonistas do intolerável BBB.

Voltando à Lapa: garimpei todas as informações junto aos peritos e policiais, o fotógrafo bateu todas as “chapas” possíveis, e voltamos para a redação. “Capricha, garoto, que essa é a manchete de amanhã”, avisou logo o editor. Naquele tempo o repórter escrevia até quatro laudas sobre um fato desses. Quase um conto. Entreguei o material, fui embora e desliguei. Pois é. Depois de passar algum tempo fazendo cobertura para páginas policiais os cadáveres não impressionavam mais.

No dia seguinte, e assim que cheguei na sede da UH, ali ao lado da Rodoviária Novo Rio, apanhei um exemplar do jornal, e para a minha surpresa havia na matéria, assinado com o meu nome, um extenso diálogo entre os assassinos e a vítima, que começava assim. “Os rapazes, altos e corpulentos, entraram e foram logo recepcionados pelo morador, que lhes ofereceu um drink. Cuba Libre ou Samba em Berlim?, perguntou José Carlos, solicitando à dupla que se acomodasse no sofá”. Isso fora o preconceito evidente em relação à vítima. Não havia o politicamente correto.

Pensei: não foi nada disso que aprendi na faculdade. Pedi explicações. “Veja bem, é preciso romancear, lançar um floreio aqui e ali, como o povo gosta, enxertar com um pouco de humor, pois só a história, por mais braba que seja, não se sustenta”, foi o que ouvi.

Os colegas de outros jornais, de rádio e TV me zoaram o tempo todo. “Só para você que morto dá entrevista”, “o cadáver era simpático?”

Fui para a rua fazer um novo serviço. Os colegas de outros jornais, de rádio e TV me zoaram o tempo todo. “Só para você que morto dá entrevista”, “o cadáver era simpático?”, “a vítima poderia ter facilitado o trabalho da polícia, contando quem são os assassinos”, tive que aturar, meio sem graça.

Voltei à redação e roguei para que não assinassem mais as matérias que eu escrevesse. Nem foi necessário. Pouco depois, troquei a UH pelo JB. Os rapazes de programas foram presos e responderam por latrocínio – roubo seguido de morte – dias depois. Mas o diálogo absurdo ficou para sempre na minha memória.