Meio sem graça, solicitou ao editor que publicasse uma nota desmentindo o que havia dito, pois era soldado do Corpo de Bombeiros, e por causa das declarações que dera ao jornal, e por ordem do comando da corporação, acabou detido por 20 dias no quartel, e pior, perdeu a promoção que receberia no fim do mês.

Houve uma época em que alguns jornais mandavam diariamente um repórter nas ruas para buscar opiniões sobre o assunto do momento. A Última Hora era um deles. A seção tinha o nome de “Enquete”. Três frases de cada um dos oito ou dez entrevistados – dependia do espaço – eram suficientes. Muita gente da redação fugia desse trabalho, porque a ditadura ainda estava no poder, e mesmo que o AI-5 já estivesse extinto, as pessoas continuavam com receio de falar.

Funcionava assim: o repórter se posicionava em um lugar movimentado, abordava o cidadão, e quando esse atendia o apelo, o fotógrafo surgia do nada e clicava o seu rosto. No dia seguinte, o jornal publicava o retrato do entrevistado, tipo três por quatro, e logo abaixo a sua opinião, externada em cinco ou seis linhas. Entre parênteses, o nome, a idade e a profissão.

A UH, que já em estava em plena decadência, embora ainda pagasse em dia, costumava fazer a “Enquete” na Rodoviária Novo Rio, que ficava ao lado de sua sede, na Rua Equador. Com isso, economizava carro e motorista. Este que vos escreve, em começo de carreira, não tinha o direito de recusar nenhuma ordem, e era escalado com freqüência para cumprir a missão.

Numa ocasião, o assunto era Pelé. O Rei jogara com sucesso duas partidas por uma seleção de masters do Brasil. Daí a pergunta: você acha que Pelé pode disputar a Copa de 1986? Pois o primeiro abordado foi um sujeito enorme, forte como um touro, que ao ser questionado se transformou em um monstro, partindo para cima da reportagem, tentando agredir, gritando aos berros. Pelé? Que Pelé? O que vocês deviam me perguntar é se eu posso viver com o salário que ganho! Enfiem o Pelé no… Para a nossa sorte, saímos bem apressados e a afável criatura desistiu de ir atrás.

Em uma outra vez, a “Enquete” perguntava sobre a precariedade de transportes públicos no Rio de Janeiro. Pois um dos entrevistados disse poucas e boas, principalmente a respeito da CTC, que pertencia ao Governo do Estado, e cuja frota caía aos pedaços. E ainda agradeceu a oportunidade para fazê-lo.

Algum tempo depois, o dito cidadão surgiu na redação na hora do almoço e não foi difícil reconhecê-lo. Meio sem graça, solicitou ao editor que publicasse uma nota desmentindo o que havia dito, pois era soldado do Corpo de Bombeiros, e por causa das declarações que dera ao jornal, e por ordem do comando da corporação, acabou detido por 20 dias no quartel, e pior, perdeu a promoção que receberia no fim do mês.

O editor pediu que eu redigisse um colunão de canto de página, explicando que o jornal cometera um equívoco ao publicar as declarações atribuídas ao indivíduo. A UH não identificava o repórter responsável pela “Enquete”. Logo, meu nome não estava envolvido na questão. O desmentido foi publicado na edição seguinte. Três dias depois, o bombeiro retornou à redação. Explicou emocionado que a punição havia sido retirada do livro de registros  – ou algo próximo – da corporação, e que a promoção que aguardava fora enfim assinada.

Não demorou muito e o jornal me designou para fazer a cobertura do Palácio da Justiça. Daí em diante, nunca mais fiz a “Enquete”. Hoje confesso que às vezes era interessante, pela chance de avaliar até onde vai o conhecimento e a ignorância do povo.