Fazia o seu trabalho com correção. Não reclamava de nada. Só não se podia convocá-lo para alguma missão quando a TV transmitia jogo do Flamengo. Escondia-se numa das salas do prédio e só aparecia quando a partida acabava.

Ele sacou do bolso um cartão plastificado, com seu retrato em 3×4, no qual se lia. “Carteira de Cachaceiro. O portador desta tem o direito de beber pelo menos uma vez de graça em qualquer bar do Brasil”.

Havia na Tribuna da Imprensa um contínuo folclórico chamado Napoleão. Estava lá desde a fundação do jornal, em dezembro de 1949, e morava num quartinho que havia ao lado do arquivo, no terceiro andar. Era um negro de presumíveis 70 anos. Não sabia a sua própria idade e não portava documentos. Mancava de uma das pernas. Dizia que foi atropelado na Avenida Rio Branco quando jovem.

Fazia o seu trabalho com correção. Não reclamava de nada. Só não se podia convocá-lo para alguma missão quando a TV transmitia jogo do Flamengo. Escondia-se numa das salas do prédio e só aparecia quando a partida acabava.

Mas às sextas-feiras, descia após o fechamento, tomava três ou quatro copos de uma mistura de cachaça com vinho, que apelidou de supercatuaba, e contava todos os segredos dos patrões – os antigos e os daquela época. Gente graúda, jornalistas e políticos que tiveram influência direta na vida brasileira entre as décadas de 1950 e 1970. Impossível narrar aqui o que Napoleão contava sobre as tais figuras nos dois bares que existiam próximos da Tribuna, na Rua do Lavradio

Era um fofoqueiro formidável e tinha verdadeiro horror a homossexuais. Seus conceitos eram absolutamente arraigados. Certa vez o bravo contínuo foi flagrado na redação fazendo a barba diante de um pequeno espelho. Detalhe: passava a gilete direta na pele. Interrogado por que não usava creme, respondeu na lata. “Quem faz barba com creme é viado”.

Em outra ocasião, um intelectual que teve participação importante no surgimento da Bossa Nova e nas demais manifestações culturais dos anos 1960, assumiu a chefia do Bis, que equivalia ao Segundo Caderno de hoje do Globo. Napoleão lembrou que o dito cidadão havia trabalhado em duas peças de teatro. Pois correu ao arquivo e trouxe duas fotos que confirmavam o que dizia. Perguntado sobre que importância poderia ter aquilo, disparou. “Ué, isso prova que ele é viado”.

Um dia surgiu um papo sobre o cantor Maurice Chevalier. O valente contínuo se meteu na conversa e soltou. “Esse cara é viado”. Instado a dizer a razão que o havia levado a tal conclusão, explicou sem pestanejar. “Ora, porque é francês!”.

Para variar o tema: um dos editores solicitou que Napoleão fosse com certa urgência ao Jornal do Brasil apanhar uma foto que a Tribuna comprara. Ele ia saindo quando alguém lembrou que a criatura não possuía documentos. Logo, como passar pelo crivo da portaria? “Pode deixar que eu já venho”, prometeu. Quando voltou, com a foto num envelope, surgiu a pergunta inevitável. “Como você fez para entrar lá?”. Ele sacou do bolso um cartão plastificado, com seu retrato em 3x4, no qual se lia. “Carteira de Cachaceiro. O portador desta tem o direito de beber pelo menos uma vez de graça em qualquer bar do Brasil”. E alguém comentou. “O JB já não é mais o mesmo. Não demora e acaba”. Triste profecia.

Para encerrar: Napoleão participou ativamente de uma sessão de “exorcismo” na redação da Tribuna. Mas essa já é outra história.