O problema é que depois de mais ou menos duas horas o tal balde começava a transbordar e era preciso levá-lo até o banheiro para esvaziá-lo. E a tarefa, é claro, ficou a cargo dos jornalistas, que se revezavam

Quem viu “The Paper”, de 1994, com Glenn Close e Robert Duvall, há de se lembrar de algumas situações curiosas que ocorriam no jornal daquele filme. Pois pelo menos uma próxima delas ocorreu na redação do falecido Jornal do Brasil, quando já parecia evidente que a sua extinção era inevitável.

Foi no fim dos anos 1990. A Editoria de Esportes ficava num canto, encostada no janelão que dava para a Avenida Brasil, ao lado Caderno B. Numa tarde, alguém notou que havia uma pequena goteira no teto, revestido com umas placas frágeis de gesso. O pessoal da manutenção foi chamado e arranjou uma solução absolutamente improvisada: um balde grande para aparar água que caía. “Trata-se de um cano furado. Logo providenciaremos o conserto. Hoje não dá mais tempo”, explicou um dos operários, sem convencer ninguém.

O problema é que depois de mais ou menos duas horas o tal balde começava a transbordar e era preciso levá-lo até o banheiro para esvaziá-lo. E a tarefa, é claro, ficou a cargo dos jornalistas, que se revezavam. “Mas e de madrugada? Como vai ser?”, alguém questionou. Bem, a manutenção foi avisada e prometeu que faria “um acompanhamento de rotina” ao longo da noite.

No dia seguinte, é óbvio, o carpete estava encharcado. E a previsão ainda mais evidente era a de que o cheiro de mofo tomaria conta do lugar. O problema foi levado ao chefe da redação, que prometeu “providências enérgicas” para resolver a questão. Mas a decadência do JB já estava em curso e os funcionários já não estavam muito preocupados em segurar seus empregos. Toda semana era anunciada uma lista de demissões, em todos os setores, e muita gente nem recebia mais o salário em dia. Num dia despediram os ascensoristas, no outro os contínuos, e até o pessoal que o cafezinho da redação, e os que serviam, acabaram dançando. Quem conseguia algo abandonava o barco.

Logo, ninguém deu bola para a ordem do big boss, se é que essa foi efetivamente dada. Depois de três dias, não havia mais paciência para esvaziar o balde. O mau cheiro já se apossara do local. Vale lembrar que a cozinha ficava no sétimo andar, exatamente em cima da Editoria de Esportes, e que a água descia com força cada vez maior.

E eis que num começo de tarde o caos se instalou definitivamente, pois parte do teto despencou, e na sua esteira, uma quantidade considerável de alimentos. Tinha espinafre, cenoura, chuchu, tomate, arroz, feijão, enfim… Por sorte, apenas duas pessoas do Esporte e do Caderno B trabalhavam naquele momento – a maioria almoçava ou ainda não havia chegado ao serviço. E as duas testemunhas – uma delas era eu – não estavam no alvo da avalanche. Pois poderia ter machucado muita gente.

Uma equipe de limpeza apareceu, removeu os detritos, e o pessoal da manutenção resolveu enfim tomar uma providência, cobrindo o teto com uma lona grossa, porque já era impraticável, aquela altura, executar o conserto – o encanamento estava quase todo podre, e a redação em breve sairia dali para ocupar dois andares do mesmo prédio na Avenida Rio Branco onde funcionava antes da mudança para a Avenida Brasil, na década de 1970. Não demorou muito e encerrei minha segunda passagem pelo JB, essa de 10 anos.

O jornal ainda agonizou por mais tempo. Mas o balde e o almoço que caiu do céu ficaram para a história.