Ao retornar do subúrbio, pela Avenida Brasil, um caminhão derrapou numa curva do asfalto escorregadio, capotando em seguida, a 500 metros do nosso carro. Foi deslizando até bater no muro que divide as pistas. O fato é que durante o acidente as portas traseiras do veículo se abriram, espalhando boa parte da carga, centenas de latas de sardinha, pelo chão.

Quando perguntei se não ficaria enjoado de tanta sardinha, exibiu um sorriso de ironia, de dois ou três dentes, e respondeu rápido, com uma interrogação. “O senhor já passou fome, doutor?”. Não precisava dizer mais nada.

Na manhã de um sábado de chuva fininha, lá se vão quase 30 anos, o então jovem repórter do Jornal do Brasil que agora vos escreve, foi escalado para fazer a cobertura de um enterro no Cemitério de Ricardo de Albuquerque. Uma menina havia sido vítima de bala perdida.

Já era corriqueiro na época. Barra pesada. Você volta deprimido com o sofrimento dos parentes e amigos. Pior ainda é quando a imprensa é agredida, porque na prática está invadindo a intimidade alheia, embora tal teoria mereça discussão, que vai ficar para depois, porque a história que se quer contar aqui é sobre o que ocorreu quando já voltávamos para a redação.

Quem está com a pretensão de ser jornalista, aprenda: não há nada absolutamente definitivo no seu cotidiano, tudo é possível, notadamente numa cidade grande, onde as tragédias se sucedem com velocidade.

Tanto que ao retornar do subúrbio, pela Avenida Brasil, um caminhão derrapou numa curva do asfalto escorregadio, capotando em seguida, a 500 metros do nosso carro. Foi deslizando até bater no muro que divide as pistas. O fato é que durante o acidente as portas traseiras do veículo se abriram, espalhando boa parte da carga, centenas de latas de sardinha, pelo chão.

Foi próximo do trecho conhecido por “sabão português”, por causa da fábrica que ficava ali, num prédio centenário, no lado direito de quem descia para o centro. O trânsito parou. Eu e o fotógrafo saltamos do carro de reportagem. A propósito, os três ocupantes do caminhão saíram pela janela, exibindo apenas pequenos arranhões, nada além. E em poucos minutos uma pequena multidão invadiu a pista. Eram moradores das favelas que cercam a Avenida Brasil.

Moços, velhos e crianças. Muitos já chegavam com aquelas antigas sacolas de supermercado, e iam recolhendo, numa impressionante rapidez, todas as latinhas que viam pela frente. Não demorou muito e duas patrulhas da PM chegaram. Os policiais pularam das chamadas viaturas dispostos a acabar com a farra. Temi pelo pior. Armados, ameaçaram atirar, e um deles, que portava uma pança formidável, chegou a disparar uma vez, para o alto. Mas o povão, semelhante a um exército de formiguinhas, não deu a mínima. Muitos já estavam dentro da caçamba do caminhão.

Em dado momento, me aproximei de um dos policiais, que parecia mais sensato, e comentei que não havia muito a fazer, pois aquela multidão se tornara absolutamente incontrolável. Além disso, ponderei, a carga era perecível. O representante da Lei concordou.

Enquanto isso, o fotógrafo não parava quieto, diante daquele cenário surreal. Aliás, eu também. O mais marcante dos personagens que escolhi para entrevistar tinha 50 anos de idade, mas a aparência era de muito mais, uma prova viva de como as dificuldades extremas do cotidiano envelhecem as pessoas com rapidez. As sacolas que ele carregava estavam entupidas. Tinha o rosto encarquilhado, as mãos calejadas, e mancava de uma das pernas. Quando perguntei se não ficaria enjoado de tanta sardinha, exibiu um sorriso de ironia, de dois ou três dentes, e respondeu rápido, com uma interrogação. “O senhor já passou fome, doutor?”. Não precisava dizer mais nada.

Sem exagero, cerca de duas horas depois do acidente não havia mais nenhuma lata disponível. E o material para redigir a matéria era farto. O JB valorizava fatos que ofereciam oportunidade para mostrar os problemas sociais do país. Tanto que o acidente, pelo que ocorreu depois, ganhou é claro a primeira página da edição de domingo. E mais, rendeu na semana seguinte uma nova matéria, bem ampla, cujo objetivo era mostrar em detalhes o bolsão de miséria das favelas que margeiam a Avenida Brasil. Mas essa também já é uma outra história.