Ainda no saguão do aeroporto, e ao tomar conhecimento das declarações do cartola, Pelé foi tomar-lhe satisfações, e o falastrão, desconcertado, se apressou em pedir desculpas formais ao craque, numa atitude que ajudou a ampliar a fama de figura folclórica que começou a carregar desde que se tornou presidente da Federação Paulista de Futebol, em 1955, cargo que exerceu até 1970.

O prestígio do nosso futebol esteve efetivamente abalado ao longo de abril e maio de 1963, por conta de uma desastrada excursão ao exterior, com nove jogos por sete países da Europa, um no Egito e outro em Israel. O saldo foi de cinco vitórias, cinco derrotas, um empate, 16 gols pró e 16 contra, péssimo sem dúvida, levando-se em conta que o Brasil ostentava o título de bicampeão mundial.

Quando a Seleção chegou de volta da viagem ao Rio de Janeiro, mais de um mês após a partida, o chefe da delegação, João Mendonça Falcão, como desculpa para o fracasso, que na prática era de todos, acusou alguns jogadores de “bêbados”, outros de egocêntricos, a turma de Santos de ter discriminado os demais companheiros, e afirmou que Pelé não deveria nunca mais ser convocado para a seleção.

Nas entrevistas que concedeu no Aeroporto do Galeão, garantiu que dos 23 jogadores que participaram da excursão, apenas quatro – Eduardo, Lima, Rildo e Roberto Dias – tiveram comportamento exemplar. E explicou que ainda naquele dia faria um longo relatório narrando as peripécias do Rei. “Ele não se empregou a fundo em algumas partidas, e simulou contusões para não disputar outras, é um mal que pode contaminar a todos, pois coloca os demais em segundo plano”, afirmou.

Ainda no saguão do aeroporto, e ao tomar conhecimento das declarações do cartola, Pelé foi tomar-lhe satisfações, e o falastrão, desconcertado, se apressou em pedir desculpas formais ao craque, numa atitude que ajudou a ampliar a fama de figura folclórica que começou a carregar desde que se tornou presidente da Federação Paulista de Futebol, em 1955, cargo que exerceu até 1970.

Falcão não esteve ligado apenas ao esporte. Paulistano de 4 de janeiro de 1918, foi motorneiro de bondes na capital, quando jovem, e após abraça a política cumpriu mandatos de deputado estadual entre 1951 e 1969, e de federal, entre 1982 e 1987. Morreu na cidade natal em 13 de janeiro de 1997, aos 79 anos.

Viagem – Realizada nove meses após essa brilhante conquista, obtida no Chile em 1962, com partidas memoráveis de Garrincha, a “viagem de estudos”, assim chamada pela CBD – Confederação Brasileira de Desportos, a antecessora da CBF, em nenhum momento cumpriu a sua meta, que era a de observar o que havia de novo no esporte, sob vários aspectos. Afinal, não conseguiu perceber que os europeus já haviam começado a fabricar o que entrou para a história como “futebol-força” – privilegiando o preparo físico sobre a técnica – e cujo principal objetivo era impedir que o Brasil ganhasse o tricampeonato em 1966, na Copa da Inglaterra.

A excursão começou às 10 horas da sexta-feira, 19 de abril de 1963, quando a delegação, chefiada por Falcão, embarcou no DC-8 da Panair rumo a Lisboa, aonde chegou no sábado, recebida por pequena multidão. Viajaram também 23 jogadores, nove deles do Santos, o treinador Aymoré Moreira, o assessor técnico Vicente Feola, o supervisor Carlos Nascimento e o médico Hilton Gosling.

A ausência mais sentida era a de Garrincha, cortado por contusão. Doze dos 22 campeões mundiais de 1962 estavam no grupo. E o prêmio pela participação de cada jogador, definido com antecedência, foi – acredite se quiser – de 500 dólares.

A estreia, no domingo, 21 de abril, foi ruim: derrota de 1 a 0 para Portugal, gol de José Augusto, no Estádio Nacional, em Lisboa. Pelé não lembrou nem de longe o craque que seis meses arrasara o Benfica, na vitória de 5 a 2 do Santos, válida pelo Mundial Interclubes. A culpa caiu sobre as 10 horas de viagem. Para começo, valeu como desculpa. Três dias depois, no entanto, a seleção tomou de 5 a 1 da Bélgica, no Estádio Heysel, de Bruxelas, três gols do desconhecido Jacques Stockman, e as críticas pesadas foram absolutamente inevitáveis. Pelé, sentindo contusão, ficou de fora. Mas foi uma autêntica vergonha. Afinal, o futebol dos belgas ainda era essencialmente amador.

Pior ainda foi perder de 2 a 0 para o Racing Club de Paris. Assim a pressão só diminuiu no dia 28, quando ele mesmo, Pelé, de volta ao time, marcou três vezes na vitória de 3 a 2 sobre a França, no velho Estádio de Colombes, em Paris.

O caldo, no entanto, voltou a entornar em 2 de maio, quando o Brasil caiu diante de outra equipe basicamente amadora, a da Holanda: 1 a 0, no Estádio Olímpico de Amsterdam. Vale ressaltar que Pelé foi escalado por força de contrato, pois não reunia condições de jogo, e acabou sendo obrigado a deixar o campo aos 28 minutos, substituído por Mengálvio. Peter Hendrik Petersen fez o gol do time laranja nos acréscimos.

Uma nova vitória, 2 a 1 sobre a Alemanha, em 5 de maio, no Volksparkstadion de Hamburgo, anotando Pelé e Coutinho, aliviou o ambiente. A Comissão Técnica explicou que dali em diante a equipe entraria definitivamente nos eixos. Mas eis que no dia seguinte, o Rei machucou o joelho num acidente de carro, e acabou ficando de fora do duelo com a Inglaterra, em Wembley. Pelé estava no táxi que levava um grupo, liderado pelo radialista Geraldo José de Almeida, para fazer compras no centro de Hamburgo. Lástima.

Mas o Brasil até que foi bem. Amarildo e depois Ney Oliveira substituíram o Rei. Pepe fez 1 a 0 com meia hora. E Bryan Douglas empatou na etapa derradeira: 1 a 1, resultado que ficou de bom tamanho, diante de 90 mil pessoas, e da seleção que reunia craques do nível de Gordon Banks, Bobby Moore e Bobby Charlton. No entanto, quando a mídia e a opinião pública começavam a se convencer que o Brasil de Aymoré Moreira estava de fato evoluindo, o time tomou de 3 a 0 da Itália no San Siro, em Milão, no dia 12. Angelo Sormani, Sandrino Mazzola e Giacomo Bulgarelli, eis os nomes dos nossos carrascos. Pelé voltou a sentir contusão e deixou o gramado no segundo tempo, dando vaga a Quarentinha. Dali em diante, não jogaria mais na excursão.

Sem Pelé – Dois dias depois, a delegação atravessou o Mediterrâneo e desembarcou no Cairo, capital do Egito, para enfrentar a seleção local. Os africanos, que não tinham nenhuma importância para o futebol da época, resistiram bem. Mas o gol de Quarentinha, aos 29 minutos do segundo tempo, evitou o vexame: 1 a 0. Mais dois dias e a seleção chegou a Telavive, em Israel. Para diminuir as críticas, enfiou 5 a 0 no adversário, ainda mais fraco que o Egito. Por incrível que pareça, a delegação ainda retornou à Europa, mais precisamente à Alemanha, para disputar um amistoso contra um combinado de Berlim Ocidental, que venceu por 3 a 0 com facilidade.

Integraram a excursão: os goleiros Gilmar (Santos) e Marcial (Flamengo), os laterais Djalma Santos (Palmeiras), Altair (Fluminense) e Rildo (Botafogo), os zagueiros Cláudio (Inter), Mauro (Santos), Eduardo (Corinthians) e Roberto Dias (São Paulo), os apoiadores Zequinha (Palmeiras), Gérson (Flamengo), Zito, Lima e Mengálvio (Santos), e os atacantes Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe (Santos), Marcos e Ney Oliveira (Corinthians) e Amarildo, Quarentinha e Zagallo (Botafogo). O artilheiro da excursão foi Quarentinha, com cinco gols, seguido por Pelé (4), Amarildo (3) e Coutinho, Marcos, Pepe e Zequinha, um cada.

Na Copa de 1966, na Inglaterra, como se sabe, o Brasil foi engolido pelo futebol-força dos europeus. Mas em 1970, no México, levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima, liderado por Pelé, aquele mesmo que Mendonça Falcão queria ver longe da seleção. Sorte nossa que o presidente da CBD, João Havelange, preferiu não dar ouvidos ao dirigente.

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