O Haiti, de área semelhante à do estado de Alagoas, possuía, na ocasião, quatro milhões de habitantes, 60% de analfabetos e 80% de praticantes do vodu, também conhecido por lá como “serviço africano”. Não havia um único profissional entre os 22 jogadores do time que seguiu para o torneio.

Atendendo à solicitação do então presidente do Haiti, o ditador Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier, a Fifa promoveu a fase final das Eliminatórias da Concacaf em sua capital, Porto Príncipe, e o país não teve dificuldade para garantir vaga na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha, superando Trinidad & Tobago, México, Honduras, Guatemala e Antilhas Holandesas.

O Haiti, de área semelhante à do estado de Alagoas, possuía, na ocasião, quatro milhões de habitantes, 60% de analfabetos e 80% de praticantes do vodu, também conhecido por lá como “serviço africano”. Não havia um único profissional entre os 22 jogadores do time que seguiu para o torneio, que não pôde resistir à superioridade de equipes do primeiro escalão do futebol: perdeu para a Itália (3 a 1) na estréia e sofreu goleada histórica da Polônia (7 a 0), na segunda partida. Após a derrota para os italianos, o zagueiro Ernest Jean-Joseph, 26 anos, acabou sendo flagrado por uso de doping. Era a primeira vez que a Fifa surpreendia um atleta utilizando estimulantes na história das Copas.

Mas foi após o terceiro jogo, contra a Argentina, quando encerrou sua participação no Mundial, que o amadorismo da seleção da América Central ficou definitivamente evidente. A Argentina não teve dificuldade para fazer 4 a 1, dia 23 de junho, em Munique. Antes da partida, o atacante Guy Saint-Vil, 31 anos, o mais velho dos 22 jogadores que foram à Alemanha, substituído nos dois jogos anteriores, garantiu que não aceitaria deixar o campo de novo. Ânimos serenados, o treinador do time, Antoine Tassy, negro como 21 de seus 22 comandados, realizou no vestiário um ritual de vodu, garantindo ao presidente da Federação Haitiana, Jean Vorbe, amigo pessoal do “Baby Doc”, que a prática do culto “livraria o time do pior”, pois as pernas dos argentinos estavam “amarradas”.

Aos 8 minutos do segundo tempo, Saint-Vil, ao contrário do que anunciara, concordou em sair. Quem ordenou sua saída de campo foi o poderoso Jean Vorbe, e o jogador preferiu obedecer, pois desconfiou que o presidente da Federação poderia entregá-lo aos “tonton macoute”, a polícia política de “Baby Doc”, que torturava e matava quem contrariasse os interesses do regime de exceção, instalado no país em 1957 pelo pai de Jean-Claude, o médico François Duvalier. Quando Ruben Ayala marcou o terceiro gol argentino, os haitianos trocaram insultos, mas o pomo da discórdia, o meia Phillipe Vorbe, ficou em campo. Com 27 anos, era o único branco da seleção, e tinha sempre lugar garantido na equipe, pois era filho de Jean Vorbe. O próprio técnico Tassy criticava o fato de ter que aturá-lo.

Emmanuel Sanon, 23 anos, o único haitiano que jogava bola, descontou, mas Héctor Yazalde ampliou, provocando a retomada das discussões, que se seguiram pelo vestiário. Dois dias depois a delegação retornou a Porto Príncipe e “Baby Doc”, que não entendia nada de futebol, perdoou os compatriotas, afirmando que a inexperiência geral causara os excessos. Alívio geral. O regime de “Baby Doc” caiu em fevereiro de 1986 e o Haiti jamais voltou a disputar uma Copa.

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