Adivinhem quais os problemas da época na área da saúde? Acertou quem disse que eram exatamente os mesmos de hoje. Logo, as perguntas deveriam em torno deles. Antes de entrar, o ministro foi abordado pelos repórteres, e notei que as pontas de seus dedos, e pior, os dentes, estavam amarelados. Por causa do vício do cigarro, é claro.

Mal entrei na redação do Jornal do Brasil e ouvi os berros de José Gonçalves Fontes, o maior chefe de reportagem de todos os tempos, que também era um pauteiro fantástico. “Ministro da Saúde no Inca, vai correndo, antes dele chegar”. Ok. O Inca, para quem não sabe, é o Instituto Nacional do Câncer, na Praça da Cruz Vermelha, região central do Rio. Em menos de 20 minutos eu estava lá.

É bom lembrar, principalmente aos mais jovens, que nos anos 1980 não havia internet, ou qualquer outro recurso eletrônico, só rádio e TV. Em muitas ocasiões, se a pauta não fosse bem elaborada, o repórter saía sem saber exatamente o que cobriria. Mas era apenas uma visita “de rotina” do ministro. Uma inspeção, digamos.

Por volta das nove e meia da manhã, o Opalão do homem surgiu, cercado por motos da PM. Fiquei na espreita. O carro preto parou junto ao meio-fio, o motorista saltou para abrir a porta, o nobre cidadão deu a última baforada no cigarro, e caminhou em direção ao instituto.

Adivinhem quais os problemas da época na área da saúde? Acertou quem disse que eram exatamente os mesmos de hoje. Logo, as perguntas deveriam em torno deles. Antes de entrar, o ministro foi abordado pelos repórteres, e notei que as pontas de seus dedos, e pior, os dentes, estavam amarelados. Por causa do vício do cigarro, é claro. O homem, muito educado, fez as promessas de praxe: equipar os hospitais e provê-los dos médicos e remédios necessários. “Estamos trabalhando para acabar com pacientes deitados em macas ao longo dos corredores”, garantiu. Ok.

Voltei para a redação, expliquei ao mestre Fontes que escreveria na matéria as minhas observações. Ocupei a jurássica Olivetti Lexikon 80. E relatei tudo que havia visto, em três laudas. Sim, laudas. A redação do JB só recebeu computadores em 1988. Escrevi que o ministro era tabagista, e procurei uma forma de sugerir, é evidente, que o cigarro é um dos inimigos mais ferrenhos do câncer.

Aqui, um parêntese: os jornais tinham redatores, ou seja, jornalistas mais experientes, feras em língua portuguesa, que corrigiam os erros eventuais dos repórteres, e às vezes até reescreviam os textos, antes que chegassem aos editores. Pois bem. Quando entreguei a matéria achei que poderiam censurar o trecho em que citava o vício do ministro. Mas foi publicado na íntegra.

No dia seguinte, a assessoria do Ministério telefonou para reclamar. Fui convocado pelo editor e expliquei que não estava ali para inventar ou contar mentira. “Basta chegar perto da criatura e sentir o cheiro maldito do cigarro. Ou reparar, como fiz, nos dedos e nos dentes”. Fui liberado.

O que ocorreu nos bastidores eu não sei. Não era função minha aparar arestas. Só sei que o Fontes me elogiou. Isso era o suficiente para mim. É possível que o ministro tenha até largado o cigarro. Mas duvido que tenha voltado a visitar algum hospital, principalmente referência em câncer, dando a última baforada com a porta do carro oficial aberta.