Ramsey assumiu em 1963. Foi logo afirmando, em alto e bom som, ganhando as manchetes dos jornais. “A Inglaterra será campeã mundial em 1966”. Espelhando-se em treinadores do passado, como o austríaco Hugo Meisl e o húngaro Gusztav Sèbes, Ramsey passou a procurar jogadores para formar o time dos seus sonhos, ou que pudessem se encaixar no esquema que imaginou, muito parecido, como dito do Brasil de 1958/62.

Faz 50 anos que a Inglaterra conquistou sua única Copa do Mundo, em casa, derrotando a Alemanha na decisão por 4 a 2. Aliava o mix de 4-2-4 e 4-3-3 que consagrara o Brasil nos dois torneios anteriores, com base em três craques: o goleiro Gordon Banks, o zagueiro Bobby Moore e o meia e atacante Bobby Charlton, um dos maiores jogadores de todos os tempos.

Pois é. O Mundial de 1966 abrigaria um duelo entre treinadores consagrados. Além de Vicente Feola, campeão em 1958 com Garrincha e Pelé, desembarcaram em solo inglês Juan Carlos Lorenzo, José Villalonga e Ondino Vieira, dirigindo respectivamente a Argentina, a Espanha e o Uruguai. Portugal, cuja base era o Benfica criado pelo húngaro Bella Guttman, seria comandado pelo brasileiro Oto Glória. A Alemanha Ocidental por um homem conhecido apenas em seu país, Helmut Schön. E a Itália por um quase novato, Edmondo Fabbri.

Nenhuma seleção, no entanto, iniciava o torneio com favoritismo maior do que a anfitriã Inglaterra, treinada por Alf Ramsey, um velho conhecido dos brasileiros – integrou o Southampton que esteve no Rio e em São Paulo em 1948 e o “English Team” que disputou a Copa de 1950.

Ramsey nasceu em Dagenham, um subúrbio de Londres, em 22 de janeiro de 1920. Além de bom jogador – vestiu 32 vezes a camisa da seleção de seu país – fez sucesso dirigindo o modesto Ipswich Town, que promoveu à Primeira Divisão em 1961, ganhando em seguida o título inglês em 1962.

O fracasso da Inglaterra no Mundial de 1962, no Chile, determinara a queda definitiva de Walter Winterbotton, que estava no comando da equipe desde 1946. Nada poderia ser mais antiquado do que Winterbotton, um austero oficial da Royal Air Force, a roupa impecavelmente engomada, que só falava em disciplina e que fazia questão de manter distância dos jogadores. Técnico emergente, Ramsey era um homem de campo, falava a língua do futebol, e não tardou a substituí-lo.

Ramsey assumiu em 1963. Foi logo afirmando, em alto e bom som, ganhando as manchetes dos jornais. “A Inglaterra será campeã mundial em 1966”. Espelhando-se em treinadores do passado, como o austríaco Hugo Meisl e o húngaro Gusztav Sèbes, Ramsey passou a procurar jogadores para formar o time dos seus sonhos, ou que pudessem se encaixar no esquema que imaginou, muito parecido, como dito do Brasil de 1958/62. Ao aproximar-se do Mundial, passou a realizar treinos secretos e a restringir as liberdades dos comandados, temeroso de que perdessem a forma em bebedeiras formidáveis pelos “pubs” londrinos.

Além de Banks, Moore e Charlton, havia a dupla de atacantes formada por Roger Hunt e Geoff Hurst, cuja tarefa era a de marcar gols. E no meio, como força bruta, Nobby Stiles, uma criatura assustadora, de pouco cabelo e dentes ainda mais raros, disposto a qualquer expediente para impedir a progressão dos adversários. Stiles, que batia até em criança, caso necessário, era o retrato perfeito do tal futebol-força – que privilegiava o preparo físico em detrimento da arte – adotado por várias seleções naquela Copa.

O Brasil não tardou a naufragar. Venceu a Bulgária  por 2 a 0, mas perdeu por 3 a 1 de Hungria e Portugal. Prejudicados pela arbitragem de juízes europeus, a Argentina de Lorenzo e o Uruguai do velho Ondino também tombaram. Portugal, que tentava conservar o estilo pregado por Guttman, caiu nas semifinais diante da Inglaterra, e a Alemanha, que superara as primeiras expectativas, também não pôde suportar a anfitriã. Ramsey cumpria a sua promessa. Vale destacar, no entanto, que as quatro seleções finalistas possuíam pelo menos um jogador fora de série – além de Charlton, o alemão Franz Beckenbauer, o português-moçambicano Eusébio e o soviético Albert Shesterniev. Garrincha, em fim de carreira, e Pelé, machucado desde o segundo jogo, não apareceram.

Alf Ramsey treinou a seleção inglesa até 1974. A equipe foi eliminada do Mundial da Alemanha e ele acabou demitido. Ainda dirigiu o Birmingham por duas temporadas. Depois preferiu a aposentadoria e foi viver em Ipswich, onde morreu em 28 de abril de 1999.

 

Campanha da Inglaterra

– 0 a 0 Uruguai (11/7 – 87.148)

– 2 a 0 México (16/7 – Charlton e Hurst – 92.570)

– 2 a 0 França (20/7 – Hurst 2 – 98.270)

– 1 a 0 Argentina (23/7 – Hurst – 90.584)

– 2 a 1 Portugal (26/;7 – Charlton 2 / Eusébio – 94.493)

– 4 a 2 Alemanha Ocidental (30/7 – Hurst 3 e Peters / Helmut Haller e Wolfgang Weber – 96.924)

 

Os 22 campeões

1 – Gordon Banks (Goleiro – Leicester)

2 – George Cohen (Zagueiro – Fulham)

3 – Ray Wilson (Zagueiro – Everton)

4 – Nobby Stiles (Apoiador – Manchester United)

5 – Jack Charlton (Zagueiro – Leeds United)

6 – Bobby Moore (Zagueiro – West Ham)

7 – Alan Ball (Atacante – Blackpool)

8 – Jimmy Graves (Atacante – Tottenham)

9 – Bobby Charlton (Apoiador – Manchester United)

10 – Geoofrey Hurst (Atacante – West Ham)

11 – John Connelly (Atacante – West Ham)

12 – Ron Springett (Goleiro – Sheffield Wednesday)

13 – Peter Bonetti (Goleiro – Chelsea)

14 – Jimmy Armfield (Zagueiro – Blackpool)

15 – Gerry Byrne (Zagueiro – Liverpool)

16 – Martin Peters (Atacante – West Ham)

17 – Ron Flowers (Zagueiro – Wolverhampton Wanderers)

18 – Norman Hunter (Zagueiro – Leeds United)

19 – Terry Paine (Atacante – Southampton)

20 – Ian Callagham (Apoiador – Liverpool)

21 – Roger Hunt (Atacante – Liverpool)

22 – George Eastman (Apoiador – Arsenal)

Foto: Reprodução