Na Copa, os soviéticos, que já os conheciam, não tiveram trabalho para derrotá-los por 3 a 0, na estréia. Mas o time de Hyun não tardou a surpreender: 1 a 1 com o Chile e 1 a 0 na Itália, que muitos consideram a maior zebra de toda a história dos Mundiais.

Foi no Mundial de 1966 que pela primeira vez na história – uma das raras, aliás – fez sucesso um técnico de fora do eixo Europa-América do Sul: Myung Rye-Hyun, instrutor de Educação Física em escolas de Pyongyang, formado à imagem do “Grande Líder” Kim Il-Sung, que instalara em 1948 na Coreia do Norte, com a colaboração da China e da URSS, um governo de orientação comunista.

Hyun mantinha seus jogadores sob severa disciplina, obrigando-os a um treinamento semelhante aos dos militares, dentro e fora do campo. Antes, durante e depois das atividades todos gritavam em coro “Choson Minchu-chui Inmin Konghwa-guk” – “República Democrática Popular da Coréia”. O planejamento começou após o Mundial de 1962. Foram testados 40 jogadores em 120 amistosos internacionais, contra seleções vizinhas e equipes soviéticas. Hyun e seu auxiliar Kim Kwang-Sub não toleravam qualquer falha dos comandados. Açoite e banhos de imersão eram alguns dos castigos terríveis aplicados aos que vacilavam. Pelo menos é o que diziam.

A preparação física dotou os jogadores de força e velocidade espantosas. A vaga no Mundial foi obtida com duas vitórias tranqüilas sobre a Austrália, 3 a 1 e 6 a 1, no campo neutro de Phnom Penh, capital do Cambodja. Na Copa, os soviéticos, que já os conheciam, não tiveram trabalho para derrotá-los por 3 a 0, na estréia. Mas o time de Hyun não tardou a surpreender: 1 a 1 com o Chile e 1 a 0 na Itália, que muitos consideram a maior zebra de toda a história dos Mundiais.

O jogo foi disputado em 19 de julho, no Estádio Ayresone Park, em Middlesbrough, diante de 17.829 espectadores. O árbitro foi o francês Pierre Schwinte. O técnico da Squadra Azzurra desde 1962 era Edmondo Fabbri, que morreu em 1995, aos 74 anos de idade, amaldiçoado pelo resultado. No time italiano jogavam, entre outros, o goleiro Albertosi, o lateral Facchetti, e o atacante Sandro Mazzola, que foram vice-campeões mundiais em 1970 – perderam de 4 a 1 do Brasil na decisão. O gol dos norte-coreanos foi Pak Doo-Ik. Myung Rye-Hyun completou 90 anos em abril passado. É tido ainda hoje como herói nacional.

Nas quartas-de-final, a valente Coreia do Norte fez 3 a 0 sobre Portugal em apenas 25 minutos. E só tombou porque não souberam fugir do toma-lá-dá-cá determinado pelo técnico luso-brasileiro Oto Glória. Força e velocidade não foram suficientes para livrar os asiáticos da “roda”. No fim, Portugal 5 a 3, com quatro gols de Eusébio.

A saga de Hyun e seus comandados foi contada no documentário “O jogo de suas vidas”, realizado pelos ingleses Dan Gordon e Nick Bonner, apresentado durante a Copa do Mundo de 2002.

Foto: Reprodução da internet