Pois estava eu encostado ao balcão, a passar nos olhos no jornal, e tomando meu café da manhã, quando um Fusca vermelho, da cor do diabo, parou bruscamente. Dele saltaram três indivíduos, dois deles com pistolas nas mãos, gritando pelo nome de Pernambuco, que era um dos empregados da birosca

Foi no dia 22 de junho de 1988. Há datas que são inesquecíveis. Meu horário de entrada na redação era sete da manhã. Uma delícia. Eu deixava o carro no estacionamento às seis e meia, e caminhava para uma birosca que havia numa pequena rua que passava nos fundos da sede do Jornal do Brasil, transversal à Avenida Brasil. Funcionavam ali, naquela época, os barracões de algumas escolas de samba. Logo, havia sempre algum movimento.

Pedia um copo de leite dois pães na chapa. E dava uma olhada rápida da edição do dia, ainda fresquinha, com cheiro de impressão, principalmente no noticiário de cidade, para ter pelo menos uma noção do que estava acontecendo. Pois estava eu encostado ao balcão, a passar nos olhos no jornal, e tomando meu café da manhã, quando um Fusca vermelho, da cor do diabo, parou bruscamente. Dele saltaram três indivíduos, dois deles com pistolas nas mãos, gritando pelo nome de Pernambuco, que era um dos empregados da birosca. As portas permaneceram abertas e o motor ligado.

As quatro pessoas que estavam ali – e eu era uma delas – ficaram paralisadas. Não havia o que fazer. Ato contínuo, Pernambuco saiu da parte de trás da birosca, e os caras mandaram bala, seis, sete, oito tiros no pobre diabo, que não tardou a tombar. Um mar de sangue. E os três elementos iniciaram a retirada.

Antes, no entanto, olharam bem para cara de cada um dos fregueses do local, armas em punho, como se escolhessem as próximas vítimas. Tudo se passou bem rápido. Não deu tempo sequer para imaginar algo que fosse minimamente confortável. Tentar um diálogo então, ora essa, nem pensar. Um deles, um mulato de bigode, alto e magro, trajando camiseta, bermuda e chinelos, deixou o recado, com voz de Brian Johnson. “Todo mundo aí quietinho. Ninguém viu porra nenhuma. Ninguém tem língua solta!”. Seria capaz de fazer o retrato falado dele hoje, quase 30 anos depois.

O Fusca saiu cantando pneu, soltando fumaça, virou à direita, na pista de subida da Avenida Brasil e sumiu. Corri imediatamente para a portaria do JB, pedi para chamarem uma ambulância, e sentei num dos sofás da recepção. Estava com a blusa encharcada de suor e uma sensação de enjôo indescritível. Como diz a música dos Mutantes, minha morte não me quis. Não seria exagero dizer que nasci de novo, pois na prática, sem entrar em detalhes, eu era a testemunha mais possível de ser identificada.

A moça da recepção me trouxe um copo d’água gelado, que praticamente engoli, e ali fiquei por cerca de dez minutos. Ainda ouvi o barulho da ambulância chegando, e pouco depois a sirena da polícia, e alguns gritos que não sei explicar de onde vinham e porque aconteceram. Segundos depois, o porteiro veio e me disse. “Te manda lá prá cima, rapaz. Te manda, que nem eu, nem você, ninguém vai prestar depoimento dessa merda, que maluco nesse mundo já tem de sobra”.

Mal cheguei na redação, quase vazia naquela hora, e já veio o velho Fontes, chefe de reportagem, mandando que eu corresse para uma coletiva no centro da cidade. Obedeci. Entrei na velha Brasília cor de creme do JB e o motorista comentou. “Mataram um cara aí atrás agora de manhã!”. No que respondi. “É mesmo, é? Loucura! Quem era?”. E se seguiu um diálogo surreal. “Parece que o cara táva devendo na boca. Foi justiçado, né?”.

Na realidade, nunca soube exatamente o motivo dos tiros. Mas o porteiro me falou, tempos depois, e para minha surpresa, que o Pernambuco sobreviveu. Seria desnecessário dizer que nunca mais tomei café da manhã naquela birosca.

Como curiosidade, o fato se deu no mesmo dia em que o Vasco foi campeão carioca com o gol de Cocada em cima do Flamengo. Eu não trabalhava com o futebol. Fui ao jogo como torcedor. E diante do que havia ocorrido pela manhã, a derrota do meu time, apesar de tudo, acabou sendo um refresco.