Pelo menos uma vez por semana, invariavelmente às quartas-feiras, o nosso personagem visitava um “rândevu”, ou rendez-vous na língua original, que fervia na frenética Praça Tiradentes. No dia em que marcava presença no festivo ambiente, ele chegava no jornal por volta das cinco da tarde, com o cabelo penteadinho, ainda molhado, com um sorriso de quem fez travessura, feliz como pinto no lixo.

Havia na folclórica redação da Tribuna da Imprensa um jornalista veterano, com mais de 50 anos de profissão, que tinha um hábito comum entre a rapaziada da velha guarda, tão antigo como a própria humanidade, e que passou a exigir cuidado especial depois do surgimento de uma doença contagiosa que levava à morte com alguma rapidez.

Pelo menos uma vez por semana, invariavelmente às quartas-feiras, o nosso personagem visitava um “rândevu”, ou rendez-vous na língua original, que fervia na frenética Praça Tiradentes. No dia em que marcava presença no festivo ambiente, ele chegava no jornal por volta das cinco da tarde, com o cabelo penteadinho, ainda molhado, com um sorriso de quem fez travessura, feliz como pinto no lixo.

Não fazia qualquer comentário sobre a gloriosa incursão. Dava boa tarde, sentava e começava a perguntar sobre as novidades do dia. Estava aposentado havia algum tempo, tinha uma situação de vida razoável, mas continuava em atividade para não ficar, como dizia, “jogando baralho na pracinha”.

Era uma figuraça. Numa ocasião, deixou a redação, deu a tradicional paradinha no extinto bar do Sabará, na Lavradio quase esquina da Avenida Chile, tomou meia dúzia de caipirinhas, e saiu dirigindo o próprio carro, sabe deus como.

No dia seguinte, um companheiro que também trabalhava na Tribuna, contou que o velho homem de imprensa tinha comparecido a um debate sobre jornalismo, que acontecera na sede da ABI, onde proferiu um discurso agressivo, durante o qual esculhambou – o termo é esse mesmo – diversos dirigentes do sindicato da classe, falando inclusive alguns palavrões cabeludos.

Questionado sobre o evento, e a sua vibrante participação, o nosso personagem ficou surpreso ao saber que havia estado por lá. “Quem disse isso? Saí daqui e fui direto prá casa. Vocês estão malucos!”, garantiu. O anjo da guarda, nesse dia, deve ter se esforçado bastante para levá-lo da nobre entidade até o lar doce lar. Foi vítima do perigosíssmo porre amnésico.

Voltando à narrativa do “rândevu”, em algumas raras ocasiões ele deixava de freqüentá-lo, e quando o fazia, a cafetina telefonava para a Tribuna procurando saber o motivo de sua ausência. Pela idade da criatura, a caminho dos 80 anos, o pessoal do jornal julgou que a sua presença era basicamente, digamos, figuração, dado que já não possuía o tal viço da juventude.

O que se podia imaginar é que ele praticava apenas o chamado sexo oral, o que já era muito, mas que também pagava caro pela diversão, e mais, distribuía às moças dinheiro equivalente ao carinho ardente que recebia.

Como a criatura batia ponto na Editoria de Esportes, todos que trabalhavam por lá já conheciam a voz estridente da proprietária da casa de favores. “A senhora quer deixar recado?”, era a pergunta que ela ouvia do outro da linha. “Diz, por favor, meu filho, que a Dona Marileia quer saber se o doutor não vem aqui hoje”, respondia. Sim, as meninas sentiam falta dele, era sem dúvida um freguês VIP.

Numa ocasião, um cartunista brincalhão atendeu a ligação e disse com todas as palavras. “Olha, minha senhora, o doutor mandou dizer não vai poder ir aí hoje por que tomou um café muito quente que deixou a língua em brasa”. Pois a dona do abrigo de pecadores soltou um punhado de palavrões, ampliados depois que começou a escutar, lá no fundo, os gracejos da galera, que já havia percebido do que se tratava.

Na realidade, o velho jornalista estava em casa, com febre, e preferiu repousar. Dois dias depois, no entanto, ele apareceu na redação soltando chamas pela boca, querendo saber a todo custo quem havia interceptado o telefonema. O desejo de rir da galera era insuportável. Mas fez-se silêncio profundo. “Era a senhora da predial onde recebo meus alugueis. Só isso. Fui lá, ela se queixou, e passei uma vergonha danada”, garantiu.

Revoltado, se retirou. Era uma sexta-feira. A Tribuna não abria aos sábados, pois não circulava no domingo, quando funcionava apenas em regime de plantão, com menos da metade da redação. E o nosso personagem voltou na segunda como se nada tivesse ocorrido. Na realidade, era uma doce figura, querido por todos, tanto que era chamado pelo apelido, uma corruptela de seu sobrenome. No começo da noite, já em tom de brincadeira, não se conteve. “Aqui só tem filho da puta. O dia de cada um de vocês vai chegar. Podem esperar”.

Mais de dez anos depois, eu estava no Sportv, e soube, pouco antes de entrar no ar para fazer o “Troca de passes”, que ele havia morrido. Tinha uma saúde de ferro. Contava mais de 90 anos. Restou prestar-lhe, ao vivo, uma homenagem sincera e emocionada. Pois é. As pessoas vão embora e as histórias ficam. Em breve voltaremos com outra passagem do velho homem de imprensa. Até lá.