Enquanto o fotógrafo aproveitava para tirar “chapas” do local, Manson, que tudo indica, era o assessor de imprensa da turma, voltou a se manifestar. “A gente não tamo fazendo mal prá ninguém. Tamo aqui há muito tempo e nunca teve recramação”, garantiu

Trabalhar na Editoria de Cidade do Jornal do Brasil era uma caixinha de surpresas, ou seja, se deparar, com freqüência, com situações curiosas. Pois numa radiante manhã de sol recebi a incumbência de elaborar matéria sobre pessoas que mantinham uma criação de galinhas no Aterro do Flamengo.

O carro demorou a deixar o pátio do jornal, porque o fotógrafo designado para a reportagem, ótimo sujeito, era de um mau humor formidável. Não gostava de ser escalado para cobrir fatos que, na sua ótica, não tinham importância, por uma razão óbvia: não rendiam primeira página. “Criação de galinha no Aterro? Esses caras estão de sacanagem!”, disse, ao ser avisado sobre o serviço. Solicitei amavelmente que ele se entendesse com o chefe. Pouco depois, o cidadão retornou. “Vamos ver no que dá essa merda”, disse.

Não foi difícil localizar onde estava a, digamos, fazenda urbana, pois o pauteiro tomou conhecimento do assunto graças a uma denúncia de alguém que residia na Avenida Ruy Barbosa. Lá chegando, olhamos de longe, e vimos que havia um cercado de madeira com cerca de cinco metros, rodeado por um punhado de gente maltrapilha, uns três ou quatro barracos de lona, uma fogueira, e alguns animais passeando pela área.

Chegamos mais perto e tivemos uma bela recepção. Dois mendigos, visivelmente embriagados, arremessaram garrafas na nossa direção. Duas, três, quatro. O arsenal era grande. O que vinha na frente era a cara do Charles Manson – só faltava a suástica tatuada na testa – o que tornou a missão mais assustadora. Tentei explicar que não éramos da polícia.

Logo surgiram outros quatro ou cinco elementos, todos sob o efeito do álcool, fazendo juras de morte. Sim, havia a possibilidade de alguém ter uma arma de fogo. Mas não era o caso. Mas foi possível ver duas facas de cozinha nas mãos de dois deles. Um deles, aliás, mal se agüentava de pé Depois de cinco minutos a cólera da horda diminuiu. E foi possível dialogar. “Doutor, cês são da Grobo? Ó, a gente mora aqui mesmo e a bicharada é prá comer, matá a fome, sabe?”, disse Manson, exibindo seus dois dentes solitários.

Enfim, conseguimos chegar próximo do objeto de nossa reportagem, e foi possível observar cerca de 30 ou 40 alados. Entre galinhas e patos, havia um peru, e mais, um porco, imenso de gordo, que logo deduzi, era o segurança da criação. Num canto, um comedor carregado de milho. Enquanto o fotógrafo aproveitava para tirar “chapas” do local, Manson, que tudo indica, era o assessor de imprensa da turma, voltou a se manifestar. “A gente não tamo fazendo mal prá ninguém. Tamo aqui há muito tempo e nunca teve recramação”, garantiu.

Para quem não sabe, há uma faixa do Aterro junto ao mar, com muitas pedras na beira, que não se pode ver dirigindo, ou como passageiro de num veículo, mesmo que a velocidade não seja grande. Há por ali um autêntico paraíso da vadiagem: mendigos, os chamados menores abandonados, enfim toda a sorte de vagabundos. Como a miséria só fez aumentar, esse quadro não deve ter mudado, pelo contrário, possivelmente piorou.

Manson foi até o galinheiro e trouxe uma das penosas, que nos ofereceu, enquanto posava para o retratista mal-humorado, que a essa altura já concordava que o circo renderia ótimas fotos. “Pode levá, pode levá, tem muita por aqui. Só não traz a polícia, doutor”, solicitou. E começou a contar algumas histórias tristes das pessoas que estavam ali, homens, mulheres e crianças, gente largada à própria sorte, afetadas pelas armadilhas da vida. Explicou ainda que os animais também eram negociados numa feira próxima, o que rendia “um dinheirinho”.

Pouco mais de uma hora depois da nossa chegada eu disse que o regisrtro da tragédia urbana, para mim, estava completo. Ele deu o ok e iniciamos a retirada da laguna. Optamos em deixar por lá a tal galinha que ganhamos de presente, mesmo sabendo que a mesma em breve serviria como refeição.

A matéria, enfim, foi redigida com humor, sem deixar, no entanto, de mostrar que a criação improvisada era um autêntico retrato do nosso cotidiano, o tipo de fato que o JB adorava explorar. Assim, para alegria do fotógrafo, deu primeira página no dia seguinte, com o título “Na rua, na chuva, na fazenda”.

Parece que a prefeitura não se interessou em remover aquele povo dali. Pelo menos não escutei ou li nada a respeito. Mas, como dito, trabalhar na Editoria de Cidade era uma caixinha de surpresas.