O cidadão que dera o alerta à imprensa – às gargalhadas – garantiu que um espectador morrera sentado na poltrona, fulminado por um enfarte, provocado pela, digamos, emoção que sentira ao degustar as cenas projetadas no telão

Numa tarde abafada de verão fui convocado para cobrir um fato inusitado, que aconteceu no tradicional Odeon, que justificou, ao lado de outras salas de exibição, como Capitólio, Império, Iris, Orly, Rex, Plaza e Vitória, entre outros, o nome de Cinelândia dado no começo do século passado a um pedaço da região central do Rio.

Na década de 1980, com o surgimento de entretenimentos distintos, as casas que não fecharam passaram a programar pornochanchadas, e até filmes com sexo explícito, para garantir o faturamento. Pois o cartaz do Odeon, naquela semana, era “Taras e vícios secretos de James Love”, cujo enredo, como se vê, é desnecessário esclarecer.




A história daquela tarde chegou à redação da Última Hora graças a uma ligação anônima. Ao desembarcar na porta do Odeon percebi que o cidadão havia telefonado para a maioria dos jornais, e das emissoras de rádio e TV, tal o aparato que aguardava na calçada as informações que seriam prestadas pela polícia.

O cidadão que dera o alerta à imprensa – às gargalhadas – garantiu que um espectador morrera sentado na poltrona, fulminado por um enfarte, provocado pela, digamos, emoção que sentira ao degustar as cenas projetadas no telão. Em bom português, a vítima passou desta para melhor no auge da masturbação, de calça arriada, com a mão agarrada ao pinto.

Como era de praxe em tempos antigos, o Odeon era uma sala de espetáculos gigantesca, com quase mil assentos. E as sessões diurnas não recebiam multidões no horário comercial. Logo, o morto só foi notado após a segunda sessão do dia. A polícia chegou, pôs para fora quem ainda estava lá dentro, e fechou o cinema, para evitar alarde. No entanto, o mesmo espectador que alertou o gerente, também convocou os jornalistas, e ao vê-los do lado de fora, ávidos por explicações, o delegado responsável se assustou, sem saber como a turma havia tomado conhecimento do que ocorrera.

Mas, sem alternativa, acabou atendendo a todos. Explicou, meio sem jeito, e forçando a barra para evitar o riso, que o morto, segundo o gerente, e a exemplo de outros fregueses da casa, tinha pouco mais de 60 anos de idade. Era freqüentador diário do Odeon, assistia quase sempre a mais de uma sessão, e que os funcionários não tinham ordens para reprimir “o desejo íntimo de cada um”.

O homem da lei proibiu a entrada de repórteres e fotógrafos no cinema, “para evitar o constrangimento da família”, mas um dos retratistas burlou a vigilância e bateu várias chapas do pobre-diabo, incluindo a que acabou sendo publicada num jornal escandaloso do Rio, que já saiu de circulação. Não me recordo as conseqüências.

O mais complicado foi redigir a matéria, numa época em que não havia tanta liberdade para tal, que a orientação era o decoro, até porque foi necessário, é claro, narrar o acontecimento com respeito, como se exigia.

Mas é fato também que “Taras e vícios secretos de James Love” – uma produção francesa que prometia “orgias de alto nível” – permaneceu em cartaz, provocando novas emoções, levando outros indivíduos a orgasmos delirantes, pouco importando a cada um se o risco de passar para o andar de cima era risco iminente. Não se soube, porém, de outro indivíduo fulminado pela maratona sexual exibida nos telões.