O futuro Rei substituiu Del Vecchio. Passados quatro minutos, Jair Rosa Pinto lançou o guri, que aplicou um balão em Mário, invadiu a área, ameaçou bater de esquerda e tocou de leve com a direita, entre as pernas de Zaluar.

Faz 60 anos no próximo dia 7 que Pelé, o maior craque de todos os tempos, jogou e marcou pela primeira vez como profissional de futebol. Foi num amistoso entre o Santos e o Corinthians de Santo André, na cidade do ABC, promovido pela prefeitura local para comemorar o 134º aniversário da independência do Brasil. Um público estimado em 10 mil pessoas, acanhado nas arquibancadas, não escondia a excitação de poder acompanhar de pertinho os cobras do então campeão paulista, como Zito, Álvaro, Del Vecchio e Jair Rosa Pinto, entre outros.

 

O primeiro tempo terminou em 4 a 0. Com meia hora da etapa final, o time vencendo por 5 a 0, o técnico Lula decidiu observar se Pelé, 16 anos incompletos – nasceu em 23 de outubro de 1940, em Bauru, interior paulista – repetiria entre os titulares as proezas que mostrava no juvenil. O futuro Rei substituiu Del Vecchio. Passados quatro minutos, Jair Rosa Pinto lançou o guri, que aplicou um balão em Mário, invadiu a área, ameaçou bater de esquerda e tocou de leve com a direita, entre as pernas de Zaluar. O jogo acabou em 7 a 1. Naquela tarde, o goleiro, aos 30 anos de idade, desiludido, deixava o futebol. Não suportou as brincadeiras. “Tomar gol de uma criança, rapaz…”, diziam-lhe. Do outro lado, o menino Pelé, com apenas um mês de Santos, decolava definitivamente para a glória. Logo, Zaluar passou a ter orgulho da história, mandando confeccionar cartão de visitas com a frase. “Zaluar Torres Rodrigues – Goleiro Rei Pelé 0001”.

Trajetória como juvenil – A primeira partida de Pelé com a camisa do Santos foi como juvenil, em 26 de agosto de 1956, na Vila Belmiro, na vitória de 6 a 2 sobre o Clube Recreativo Vasco da Gama, pelo campeonato santista da categoria. A equipe atuou com Alemão, Enock e Marcelino; Realista, Ari Silva e Darci; Bodinho, Pelé, Raimundinho, Waldir e Ivan. Pelé jogou mais 12 vezes como juvenil do Santos, contra Portuguesa Santista (8 a 0 e 5 a 0), Lanús (4 a 0 e 4 a 0), Ponta da Praia (3 a 1), Comercial de Cubatão (7 a 1), ABC (3 a 0), Portuários (3 a 1), Jabaquara (0 a 1, 0 a 1 e 7 a 0), encerrando a sua participação na derrota de 2 a 1 para o mesmo CR Vasco da Gama, no Estádio Ulrico Mursa, campo da Portuguesa Santista, em 6 de janeiro de 1957. Naquele mês, passou a integrar definitivamente o elenco de profissionais. Das 13 partidas, ganhou 10 e perdeu três, marcando 13 dos 51 gols do time. Em 1956, Pelé jogou apenas mais uma vez no time principal do Santos, na vitória de 4 a 2 sobre o Espanha FC, em amistoso realizado na Vila Belmiro, marcando um gol. Naquele ano, o Santos foi bicampeão paulista.

Herança – A trajetória do Rei no Santos acabou em 2 de outubro de 1974, na vitória de 2 a 0 sobre a Ponte Preta, na Vila Belmiro. As principais conquistas da Era Pelé são: Mundial Interclubes e Taça Libertadores (ambos em 1962 e 63), Torneio Roberto Gomes Pedrosa (1968), Taça Brasil (1961, 62, 63, 64 e 65) e Campeonato Paulista (1958, 60, 61, 62, 64, 65, 67, 68, 69 e 73). Pelé também foi artilheiro do Paulista em 10 ocasiões, com marcas impressionantes, a conferir: 58 gols (em 1958), 44 (em 59), 34 (em 60), 47 (em 61), 37 (em 62), 22 (em 63), 34 (em 64), 49 (em 65), 26 (em 69) e 11 (em 73).

Já sem Pelé, o Santos venceu o Juventus por 2 a 1, no Pacaembu, em 5 de outubro de 1974. Marcaram Gílson e Edu. O jovem Gílson, que substituiu o Rei no dia de sua despedida, não vingou. Em seguida, o Santos contratou o peruano Ramon Mifflin, que no Peixe não passou de jogador razoável. Na realidade, foram poucos os que vestiram com brilho a camisa 10, na seqüência: Cláudio Adão e Lira nos anos 70, Pita entre 1978 e 1983, Humberto, no título paulista de 1984, Giovanni na década de 90, além de Diego, após 2002, e Robinho, em 2004.

Zaluar –  Zaluar Torres Rodrigues nasceu em Propriá (SE) em 1926. Começou no EC Propriá. Passou por Bahia, Olaria, Santos, Portuguesa Santista e encerrou a carreira no Corinthians de Santo André. Após o futebol, trabalhou como fiscal de rendas da prefeitura local. Morreu em 1995.

 

SANTOS 7 x 1 CORINTHIANS FC / SANTO ANDRÉ

Competição: Troféu Independência do Brasil.

Local: Estádio Américo Guazelli / Corinthians FC, em Santo André (SP).

Gols: Alfredinho 28′ e 41′, Del Vecchio 30′ e 64′, Álvaro 34′, Pelé 79′, Wilmar 86′ e Jair Rosa Pinto 89′.

SANTOS: Manga, Hélvio e Ivan (Cássio); Ramiro (Fioti), Urubatão e Zito (Feijó); Alfredinho, Álvaro (Raimundinho), Del Vecchio, Jair Rosa Pinto e Tite.

CORINTHIANS: Antoninho (Zaluar), Bugre (Mário) e Chicão (Dati); Mendes, Zito e Tonico; Wilmar, Cica, Teleco (Odílio), Rubens e Dore.

 

Foto: Reprodução