João Havelange – morto na manhã de hoje aos 100 anos de idade – é o personagem mais controvertido da história do esporte brasileiro. Elogiado e criticado na mesma proporção. Na realidade, sua trajetória vai muito além do futebol, e dos próprios limites do país, dada a sua importância como presidente da Fifa, entre 1974 e 1998, e membro de destaque do Comitê Olímpico Internacional.

Ex-atleta – integrou a nossa delegação nas Olimpíadas de 1936, em Berlim, na equipe de natação – sofreu um punhado de acusações nos últimos 10 anos, basicamente de enriquecimento ilícito, embora jamais tenha ostentado riqueza proporcional ao dinheiro que teria recebido – como sustentam as peças processuais – praticando tráfico de influência.

O fato inegável é que o dirigente teve papel absolutamente fundamental no desenvolvimento do futebol, aqui e lá fora, como presidente da antiga CBD, entre 1958 e 1974, período em que o Brasil conquistou três títulos mundiais, e da Fifa, agregando às competições da entidade nações discriminadas pelas administrações anteriores, notadamente da África, Ásia e Oceania.

Foi por exemplo ao longo de sua presença na Fifa que a África do Sul, afastada três décadas do esporte por sua política de apartheid, e a China, que se isolou do planeta nas décadas de 1960 e 1970, durante a Revolução Cultural, voltaram ao convívio das competições internacionais. Vale lembrar ainda que nenhum país africano esteve presente nas Copas do Mundo de 1930, e de 1938 a 1966, por imposições de cartolas os três continentes citados como lixo.

Havelange praticamente fabricou os campeonatos de divisões de base, do Sub-15 ao Sub-20, introduzindo a participação de multinacionais como patrocinadoras de eventos. Foi o dirigente que profissionalizou definitivamente a Seleção Brasileira, organizando as comissões técnicas que deram fim ao absolutismo dos treinadores, hábito comum desde a formação da primeira equipe, em 1914.

Havelange teve também importância direta na batalha travada pelo então presidente da Confederação Brasileira de Vôlei, Carlos Arthur Nuzman, para derrubar os vetos do Conselho Nacional de Desportos, criado na ditadura Vargas (1930-1945), que impediam empresas em geral de bancar os clubes, como já ocorria na Europa, e mais, o ingresso de associações classistas nas competições.

A trajetória de Havelange valeria uma enciclopédia. Assim, fica aqui pelo menos um breve registro de sua história. De hoje em diante, ame-o ou deixei-o. Que descanse em paz.

 

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