Eram uns 20 indivíduos, alguns de fato à vontade, outros maltrapilhos, três ou quatro dormindo, garrafas por todos os lados, e como narrara a zelosa senhora ao telefone, dois casais fazendo amor, uma visão, digamos, fantástica, sob a luz do sol da bela manhã de outono.

No fim da tarde de uma segunda-feira uma senhora que não quis se identificar telefonou para a redação do Jornal do Brasil para avisar que a Secretaria de Serviço Social, ou algo próximo, faria uma blitz no entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, com o objetivo de recolher moradores de rua.

A dita criatura, provavelmente um figurão, tal a urgência que as autoridades deram ao seu reclame, explicou os motivos de suas queixas. “Meu filho, eles fazem até sexo, todo mundo despido, tem de tudo, homem com homem, e até mulher com mulher, em plena luz do dia, mostrando aquelas coisas todas, imagina só!”.

Comuniquei o fato à chefia, e acabei sendo escalado para a cobertura, como ocorria habitualmente quando o repórter anotava a pauta. Na realidade, esse que vos escreve, com 30 anos e 30 quilos a menos, corria diariamente em torno da Lagoa, e sabia onde a mendicância se concentrava. E no dia seguinte lá fomos nós para a pequena ponte em frente ao Jardim de Alah.

Chegamos por volta das oito e meia da manhã, e nos posicionamos a uma distância suficiente para o fotógrafo fazer registros da festa, que já rolava solta. Eram uns 20 indivíduos, alguns de fato à vontade, outros maltrapilhos, três ou quatro dormindo, garrafas por todos os lados, e como narrara a zelosa senhora ao telefone, dois casais fazendo amor, uma visão, digamos, fantástica, sob a luz do sol da bela manhã de outono. Restava aguardar o pessoal da Secretaria, que só fazia a abordagem com o auxílio da Polícia Militar, que ninguém é herói.

Entorpecidos, os nossos personagens não acompanhavam o movimento que crescia no seu entorno, e quando perceberam os agentes e soldados já estavam dando o bote, arrastando-os para o ônibus talhado para o serviço, com janelas e porta gradeadas, no qual seguiam para um abrigo, para a triagem.

Um parêntese: numa ocasião visitei um desses durante três dias para elaborar uma longa reportagem. Notei que o tratamento era razoável, camas limpas, café e leite pela manhã, duas refeições diárias, e a possibilidade de voltar ao estado de destino, se fosse o caso. Mas todos os internos diziam que ali era “muito ruim”, sem explicar exatamente o motivo da rejeição. Até que um deles me disse. “Doutor, sabe por que ninguém quer ficar aqui? Num tem cachaça, doutor, num tem cachaça, o senhor entendeu?”.

Voltando à abordagem na Lagoa, não seria nenhum exagero afirmar que o pau comeu na casa de noca, pois os mendigos não só arremessaram garrafas e panelas, como puxaram facas e entraram em luta corporal com policiais e agentes, num duelo inglório para os pobres diabos, que, fortemente embriagados, acabaram cedendo. Não havia ninguém lúcido. Os coitos foram bruscamente interrompidos.

Envolveram os mais peladões, homens e mulheres, negros, pardos e brancos, com camisolões azuis. Os demais, sem saída, também tomaram o rumo da prisão móvel. Agentes e policiais incendiaram o que a mendicância deixou.

A dita senhora, provavelmente um figurão, deve ter cruzado a área, no dia seguinte, de cabeça em pé, com a certeza que cumprira o seu dever. Quinze dias depois eles estavam de volta. Fazendo amor, bebendo cachaça, enfim a mesma farra, ou a desgraça de sempre. Depende do ponto de vista.

Ou a senhora mudou para outro bairro ou por alguma circunstância perdeu a influência. E eu nunca mais tive a impressão de que o problema social do Brasil estava próximo de ser resolvido.