A frota de reportagem do JB era formada por automóveis da marca Brasília, na cor creme, com o logotipo preto do jornal nas portas. A identificação evitava que os seus ocupantes fossem confundidos com bandidos, ou policiais, naquelas terras quase sem lei.

O Lote XV é hoje um bairro do município de Belford Roxo, esse na época distrito de Nova Iguaçu, e mais um lugar perdido na imensidão da Baixada Fluminense, conhecido então por ser um terreno de desova de cadáveres.

Eu trabalhava no Jornal do Brasil, que não dava muita importância às chacinas cotidianas praticadas pelo Esquadrão da Morte, mas vez por outra, quando a quantidade de mortos era maior, enviava uma equipe ao local, pois poderia render uma boa história.

A Baixada – e isso não mudou muito – era de uma pobreza singular, e mesmo à luz do sol, oferecia um perigo a cada esquina. A frota de reportagem do JB era formada por automóveis da marca Brasília, na cor creme, com o logotipo preto do jornal nas portas. A identificação evitava que os seus ocupantes fossem confundidos com bandidos, ou policiais, naquelas terras quase sem lei.

Pois vamos à chacina daquele dia, que era exemplar. Cinco sujeitos bem amarrados pelos braços, uns aos outros, com requintes de crueldade: dois estavam com as calças abaixadas, um sobre o outro, sugerindo que foram obrigados a praticar sexo antes do, digamos, juízo final. Os cadáveres, como de hábito, tinham cartazes pendurados ao pescoço, com as letras E. M., deixando evidente quem foi o autor da matança. O único corpo virado para cima trazia ainda uma espécie de aviso aos prováveis aprendizes daquela turma. “Eu assaltava àààààààààà beça. Não roubarei mais ninguém”, parodiando o anúncio de uma rede de eletrodomésticos da época.

Como também invariavelmente acontecia, pequena multidão se formava em torno dos cadáveres, e para impedir que as pessoas se aproximassem, estacionava no local uma viatura da polícia, militar ou civil.

Há, nesse tipo de situação, uma regra básica entre os moradores: ninguém viu ou ouviu nada. Mesmo sem depoimentos, os jornais que publicavam os presuntos – como se dizia – em suas primeiras páginas, faziam a festa, pois um texto-legenda era suficiente para sustentar a foto. Mas o JB não podia sair por esse caminho, e precisava de fatos que pudessem justificar a publicação do assunto, muito distante da realidade do cotidiano de seus leitores.

Os policiais não se recusavam a atender a reportagem, mas normalmente se limitavam ao discurso formal. “A DP já iniciou as investigações. Não há, por ora, suspeitos. Mas informaremos assim que tivermos algo concreto”. Os jornalistas sabiam que em quase todas as ocasiões os matadores poderiam ser os próprios policiais que estavam ali, tomando conta das vítimas, ou seja, integrantes do E. M., cuja ação ainda era de alguma forma respaldada pela ditadura, mesmo em seus últimos dias de reinado.

Do outro lado, e embora as pessoas se esquivassem de entrevistas, havia sempre alguém que puxava um repórter pelo braço para passar algo que no seu conceito pudesse ser útil. “Os caras do circo viram tudo. É aqui pertinho. Vai lá que você pode se dar bem”, foi o que ouvi de um cidadão, que sumiu com rapidez na confusão geral.

Perguntando aqui e dali, eu, o fotógrafo e o motorista chegamos ao tal circo, formado por uma Kombi improvisada como trailer, e uma lona esfarrapada, armada em terreno próximo de um charco – quem nunca foi não pode ter a idéia do que era a Baixada. Surgiu da tal tenda um indivíduo seminu, magérrimo, de andar gingado, que mal teve tempo de perguntar qual era o nosso propósito, pois começamos a escutar tiros desferidos a esmo, que concluímos, com a velocidade, do som, tinham o objetivo de nos assustar. Ainda imaginei que meu dia de acertar as contas com o criador havia chegado. Assim, longe de sermos investigadores, ou heróis, e com o juízo perfeito, entramos na Brasília e nos evadimos.

Passamos pela DP, salvo engano a 54ª, e colhemos a retórica oficial do delegado. “Trata-se de um grupo clandestino, que age à margem da Lei, encoberto pela ignorância e a obscuridade da pobreza, em conluio com comerciantes locais. Mas posso afirmar que as investigações estão próximas de um desfecho, e essa turma toda, com certeza, pagará pelo que fez e ainda faz”. Isso, é claro, jamais ocorreu.

Pois é. Vi o Esquadrão da Morte de perto. Mais uma vez, no entanto, saí são e salvo da Baixada, o retrato fiel de um país que continua preso ao subdesenvolvimento.