A “Máquina” montada pelo “eterno presidente” Francisco Luiz Cavalcanti da Cunha Horta, com seus craques de dar inveja, seguia dona absoluta do futebol carioca. “Foi o maior fracasso da minha carreira”, lamentou Roberto Dinamite, enquanto Rivelino, incontido, ressaltava que se o seu ex-clube, o Corinthians, estava há mais de 20 anos sem chegar a campeão, a culpa definitivamente não era dele.

Há um consenso de que hoje seria praticamente impossível, dadas as transformações vividas pelo futebol, montar uma equipe como a do Fluminense, bicampeã do Rio em 1976, chamada de “Máquina”.

Todos, do goleiro ao ponta-esquerda, passaram por seleção. Sete deles – Renato, Carlos Alberto Torres, Rodrigues Neto, Paulo César Lima, Rivelino, Gil e Dirceu – disputaram Copa do Mundo. Assim, o favoritismo que carregou para a decisão daquele Estadual, diante do Vasco, era lógico. Na realidade, restava aos cruz-maltinos torcer para que a autoconfiança voltasse a derrubar os tricolores, como ocorrera no quadrangular final do campeonato.

Foi assim: o Fluminense venceu o América (2 a 0) e empatou com o Botafogo (0 a 0). O Vasco bateu os alvinegros (1 a 0) e ficou no 1 a 1 com os rubros. No clássico entre ambos, na última rodada, em 29 de agosto, o time das Laranjeiras meteu 2 a 0 no começo do segundo tempo, mas rebolou, permitindo que o de São Januário, com os brios feridos, chegasse ao 2 a 2, empurrando o desfecho do Estadual para um jogo-extra.

Foi naquele 1976 que a CBD começou a cumprir à ordem de “integração nacional” ditada pelo Governo Militar, promovendo um Campeonato Brasileiro com 54 clubes, tornando o calendário cada vez mais apertado, obrigando Fluminense e Vasco a empurrarem a decisão regional para 3 de outubro.

O jogo ganhou grande espaço na mídia. Afinal, digno de nota, naquele domingo, ressaltava-se, antes de tudo, mais pelo caráter inusitado, a declaração de um general do círculo do poder ao Jornal do Brasil. “O movimento hippie foi criado em Moscou. Assim, se os pais não orientarem cuidadosamente a juventude, o comunismo acabará dominando o Brasil”, garantia. Havia também a badalação em torno da novela “Escrava Isaura”, adaptada do romance de Bernardo Guimarães, cuja estréia estava prevista para aquela semana.

O Maracanã recebeu quase 130 mil pagantes. E o jogo transcorreu dentro da expectativa. O Fluminense de Mário Travaglini tinha a posse absoluta da bola, enquanto o Vasco de Paulo Emílio defendia-se bravamente, impedindo que o adversário criasse oportunidades. No segundo tempo, o tricolor apertou o cerco, desperdiçando chances consecutivas, com Dirceu, após passe açucarado de Paulo César Lima, em chutes de Rubens Galaxe e Rivelino na trave, e com Gil, num lance inacreditável, que deixou os cruz-maltinos certos de que a sorte estava definitivamente ao lado deles.

A turma de São Januário, na prática, sonhava em levar a decisão para os pênaltis, ou, na melhor das hipóteses, num contra-ataque surpreendente e fatal. Pois esse veio, aos 12 minutos da prorrogação, mas Roberto Dinamite, logo ele, desequilibrou-se e perdeu o controle da bola. E o castigo acabou vindo na seqüência. Paulo César Lima cobrou uma falta pela esquerda, Carlos Alberto Pintinho escorou de cabeça para a pequena área, onde o gringo Doval superou Abel – o hoje técnico Abel Braga – para concluir, também de “cuca legal”, como narrava Waldyr Amaral, no canto direito de Mazaropi. Não houve tempo para reação.

A “Máquina” montada pelo “eterno presidente” Francisco Luiz Cavalcanti da Cunha Horta, com seus craques de dar inveja, seguia dona absoluta do futebol carioca. “Foi o maior fracasso da minha carreira”, lamentou Roberto Dinamite, enquanto Rivelino, incontido, ressaltava que se o seu ex-clube, o Corinthians, estava há mais de 20 anos sem chegar a campeão, a culpa definitivamente não era dele. E o grande time do Fluminense fechava o Estadual dando razão a Joãosinho Trinta, que afirmou, após a conquista do carnaval daquele ano pela Beija-Flor. “O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual”.

 

FLUMINENSE 1 x 0 VASCO

Data: Domingo, 3 de outubro de 1976.

Competição: Campeonato Carioca de 1976 / Final.

Local: Estádio Jornalista Mário Filho / Maracanã, no Rio de Janeiro / RJ.

Público: 127.052 pagantes.

Arbitragem: Armando Nunes Castanheira da Rosa Marques, Eduardo Monteiro e José Maria Brandão  / RJ.

Gol: Doval 13’ do segundo tempo da prorrogação.

FLUMINENSE: Renato, Rubens Galaxe, Carlos Alberto Torres, Miguel e Rodrigues Neto; Carlos Alberto Pintinho, Paulo César Lima e Rivelino; Gil, Doval e Dirceu. Técnico: Mário Travaglini.

VASCO: Mazaropi, Toninho, Abel, Renê e Luis Augusto; Zé Mário, Gaúcho e Galdino; Luis Carlos Tatu, Roberto Dinamite e Dé (Luiz Fumanchu). Técnico: Paulo Emílio Frossard Jorge – Paulo Emílio.

 

 

Dois jogos interessantes da campanha tricolor

* Sábado, 24 de abril de 1976

Goytacaz cai de nove

A Máquina, ainda dirigida por Jair Rosa Pinto, curiosamente, perdeu de 3 a 0 para o Bonsucesso, na estreia do Estadual. Mas aos poucos foi se ajeitando. E na noite do sábado, 24 de abril, aplicou no Goytacaz a que é hoje a segunda maior goleada da história do Maracanã: 9 a 0, ao lado de Flamengo 9 x 0 Portuguesa, em 1978. O massacre começou aos três minutos, quando Totonho marcou contra. E terminou aos 38 do segundo tempo, com o terceiro gol do “Búfalo” Gil. Doval também fez três. Dirceu e Paulo César Lima completaram.

 

FLUMINENSE 9 x 0 GOYTACAZ

Data: Sábado, 24 de abril de 1976.

Competição: Campeonato Carioca de 1976 / Primeiro turno / 10ª rodada.

Juiz: Reginaldo Mathias (RJ).

Público: 15.665 pagantes.

Gols: Totonho (contra) 3’, Doval 22’, Gil 25’ e Dirceu 38’ do primeiro tempo e Paulo César Lima 7’, Gil 9’, Doval 23’ e 81’ e Gil 38’.

FLUMINENSE: Renato, Carlos Alberto Torres (Rubens Galaxie), Miguel, Edinho e Rodrigues Neto; Pintinho, Paulo César Lima e Rivelino (Cléber); Gil, Doval e Dirceu. Técnico: Mário Travaglini.

GOYTACAZ: Miguel, Marcos, Paulo Marcos, Totonho e Batista; Ricardo Batata, Tita e Joãozinho (Jocimar); Betinho, Valmir (Pontexeli) e Zé Neto. Técnico: Paulo Henrique Souza de Oliveira – Paulo Henrique.

* Domingo, 16 de maio de 1976

Onde você estava quando as luzes se apagaram?

O 0 a 0 no Fla-Flu pôs o time da Gávea na decisão da Taça Guanabara. O primeiro tempo, em ritmo lento, pois as equipes não queriam se arriscar, não justificou a presença dos 155 mil pagantes. Mas na etapa final, precisando da vitória, o Fluminense encurralou o Flamengo, que só se defendeu até o momento em que Paulo César Lima chutou a bola que correu a linha e bateu nas duas traves, e as luzes do Maracanã foram embora, paralisando o jogo por longos 17 minutos, esfriando o Tricolor. Daí em diante, o Flamengo teve mais facilidade para segurar o resultado. O pessoal do Fluminense considerou o apagão “muito estranho”. Pudera. Mas o Flamengo perdeu a decisão da Taça GB para o Vasco.

 

FLUMINENSE 0 x 0 FLAMENGO

Data: Domingo, 16 de maio de 1976.

Competição: Campeonato Carioca de 1976 / Primeiro turno / 14ª rodada.

Juiz: José Roberto Wright (RJ).

Público: 155.116 pagantes.

FLUMINENSE: Renato, Carlos Alberto Torres, Miguel, Edinho e Rodrigues Neto;

Pintinho, Paulo César Lima e Rivelino; Gil, Doval e Dirceu. Técnico: Mário Travaglini.

FLAMENGO: Cantarelli, Toninho, Rondinelli, Jaime e Júnior; Merica, Geraldo (Tadeu) e Zico; Caio (Claudiomiro), Luisinho e Zé Roberto. Técnico: Carlos Benevenuto Froner.

 

Os números do campeão

Jogos – 32

Vitórias – 23

Empates – 7

Derrotas – 2

Gols pró – 74

Média – 2,3

Gols contra – 26

Média – 0,8

Artilheiros – Doval (20), Gil (19) e Rivelino (11)

 

Jogadores

Goleiros: Niélsen e Renato

Laterais: Carlinhos, Carlos Alberto Torres, Rodrigues Neto e Rubens Galaxie

Zagueiros: Adalberto, Edinho, Fernando Luiz e Miguel

Apoiadores: Arturzinho, Carlos Alberto Pintinho, Cléber, Erivelto, Paulo César Lima, Rivelino e Wilson

Atacantes: Aloísio, Dirceu, Doval, Geraldinho, Gil, Gildásio, Gílson Gênio e Luiz Alberto

 

Foto: Fluminense.com.br
Foto: Reprodução Twitter Liverpool @LFC