Logo, um sujeito esquisitão, lotado na contabilidade, e que nunca dava bom dia a ninguém, apareceu do nada, com um copo d’água em uma das mãos, e um galho na outra, ordenando que a jovem fosse acomodada numa cadeira, e que duas pessoas a segurassem, uma de cada lado, garantindo que poderia curá-la

Na velha Tribuna da Imprensa, na Rua do Lavradio, havia uma jovem, que vamos aqui chamar de Rutinha, cuja função era recolher e distribuir as notas das agências nacionais e internacionais que chegavam pelo telex. Ela fazia o seu trabalho com bastante correção. Um belo dia, a mocinha, magra e espevitada, surgiu no meio da redação vítima de um ataque repentino e assustador, na realidade uma convulsão, embora não fosse epilética.

A criatura tinha os olhos arregalados, e tremia da cabeça aos pés, emitindo um estranho grunhido, mistura de choro e dor pungente, que paralisou imediatamente os trabalhos. A coisa foi ficando efetivamente preocupante, pois a intensidade era cada vez maior, e o receio de que aquilo pudesse levar Rutinha dessa para melhor passou a ser real.

Logo, um sujeito esquisitão, lotado na contabilidade, e que nunca dava bom dia a ninguém, apareceu do nada, com um copo d’água em uma das mãos, e um galho na outra, ordenando que a jovem fosse acomodada numa cadeira, e que duas pessoas a segurassem, uma de cada lado, garantindo que poderia curá-la. O curioso – e na prática inexplicável – é que foi prontamente atendido, mesmo que ninguém soubesse como cumpriria a sua promessa.

Até então, e como Ritinha estivesse aparentemente fora de si, não se sabia o motivo do súbito tremor, até porque ela jamais havia dado qualquer alteração. Assim, o que se viu é que o tal indivíduo, conhecido como Vinte e Dois – diziam que ele tinha “carteira de maluco” – começou a praticar uma espécie de exorcismo, brandindo o galho em cima da moça, gritando palavras desconexas, o que na realidade só aumentava o seu sofrimento. O pior é cada qual dava a sua opinião sobre o que ocorria. “Tá enfartando! O sangue vai talhar. Aí para tudo, gente! Se morrer vai dá maior merda!”.

Em dado momento, e diante daquele circo, desci com o objetivo de tomar uma providência lógica, ou seja, procurar um médico, que encontrei na Academia de Polícia, que funcionava numa esquina próxima. Expliquei-lhe que era urgente. Quando chegamos na redação, Rutinha estava deitada no chão, estrebuchando. O doutor se aproximou e não se intimidou diante dos protestos agressivos do Vinte e Dois – “Quem é esse cara, porra? Veio aqui prá atrapalhar! O meu trabalho tava quase no fim! A galera, percebendo enfim – e como demorou – que se tratava de um embusteiro, expulsou o nefasto elemento da área. “Eu sempre disse que esse cara era pancadão”, comentou um contínuo.

O fato é que após examiná-la, o médico explicou que a jovem havia sido vítima de um descontrole causado por algum aborrecimento, e que precisava apenas de um tranqüilizante comum – e repouso – para se restabelecer. Alguém foi buscar o remédio. Cerca de 20 minutos, a pobre criatura, suada e esgotada, começou a voltar à vida. E foi possível saber afinal que a jovem teletipista entrou em transe porque acabara de receber a notícia – comunicado pelo próprio – que seu grande amor resolvera deixá-la, alegando que arranjara um outro bem, diminuindo de quebra, com palavras debochadas, a sua pessoa a quase nada.

O doutor recomendou que Rutinha fosse levada a um hospital, para exames de rotina, pois parecia bastante debilitada. Logo, tudo voltou ao normal. O Vinte e Dois não se alterou. Continuou sem dar bom dia a ninguém. E se antes já não tinha ambiente, após revelar a sua faceta de charlatão barato, e de ter a sua sanidade mental posta em dúvida, a sua permanência ficou insustentável, e acabou sendo demitido no começo da semana seguinte. Ao deixar a casa, transformou a despedida num show de horrores, xingando todas as pessoas que viu pela frente, inclusive a sua, digamos, ex-paciente, que para o bem geral da nação estava fechada na sala do telex, e que só mais tarde soube do trágico adeus.

Difícil que algo igual pudesse acontecer nos dias de hoje, pois as redações há muito deixaram o folclore de lado. Mas no vetusto JB ocorreu algo próximo, quando… bem, essa já é uma outra história.