Pois este que vos escreve se distraiu observando uma cela com as paredes decoradas por pinturas exóticas, e quando percebeu já estava cercado por quatro detentos, a cerca de 20 metros da turma da inspeção. Num primeiro momento, acreditei que seria feito refém

Quando um novo governador assume o poder, e até para dar uma satisfação à sociedade, o secretário de Justiça recebe a missão de visitar presídios e penitenciárias, com o objetivo de avaliar as condições de vida dos detentos.

Numa dessas ocasiões, na década de 1980, fui escalado para acompanhar três inspeções, uma das quais ao Complexo da Frei Caneca, no bairro do Estácio, Zona Norte do Rio, criado no Século 19, na época do Império, e implodido em 2010.

O procedimento é óbvio: o grupo formado por autoridades e jornalistas vai caminhando lentamente pelas instalações das cadeias, escoltado pelos agentes de segurança e policiais militares, anotando necessidades evidentes e ouvindo relatos, essencialmente queixas, de representantes do chamado “coletivo”.

A escolha da Secretaria foi a Penitenciária Mílton Dias Moreira, que reunia, na ocasião, algo em torno de 800 internos. Naqueles tempos, qualquer repórter que fazia a cobertura diária da cidade, conhecia pelo menos uma das muitas unidades prisionais do Estado, a trabalho, é claro. E o que mais impressionava, em quase todas, era o fato de muitos apenados – além dos que prestavam serviços braçais e burocráticos – circularem livremente pelos corredores e pátios, e era simples identificá-los, pois usavam o uniforme do Desipe.

No Ary Franco, também conhecido por Água Santa, porque está localizado naquele bairro do subúrbio, e até pela alta periculosidade da maioria esmagadora, a turma permanecia nas celas. Já a MDM era habitada basicamente por ladrões e traficantes de menor importância, além de indivíduos que transgrediram sem o emprego de violência física, como estelionatários e autores de crimes contra a economia popular, à exceção de agiotas, é evidente.

É provável que o procedimento no cotidiano nas cadeias, com ou sem autoridades e jornalistas, seja diferente nos dias atuais. Mas nos 1980 era como dito. De qualquer forma, para quem não vive à margem da Lei, era eventualmente um trabalho sempre perigoso.

Pois este que vos escreve se distraiu observando uma cela com as paredes decoradas por pinturas exóticas, e quando percebeu já estava cercado por quatro detentos, a cerca de 20 metros da turma da inspeção. Num primeiro momento, acreditei que seria feito refém, e a reação, nesse sentido, foi de tal maneira visível, que os bravos elementos se apressaram em explicar que eram “da paz”, e que o objetivo deles era o de solicitar que uma carta, elaborada pelo tal “coletivo”, fosse publicada em “algum jornal”.

Antes que a perguntasse lógica fosse formulada – por que vocês não entregam isso às autoridades? – um deles, mais jovem, muito articulado, explicou que não adiantava nada fazê-lo, pois “o documento” seria “guardado no bolso e esquecido”, como “aconteceu outras vezes”, porque não havia “o menor interesse” que o seu conteúdo, com denúncias graves, chegasse “ao grande público”.

Expliquei que não era o responsável pela seção de cartas, mas que faria um esforço para cumprir a missão que me foi delegada, pois estava evidente que se as péssimas instalações fossem descritas impressionariam de fato a sociedade. “Fora o que não pode ser visto, como a omissão da diretoria do complexo em relação ao mau comportamento dos agentes penitenciários, notadamente no que se refere à corrupção”, acrescentou o rapaz, alegando ainda que não “entregava” o seu nome para não ser “devidamente castigado”.

Liberado, após revelar o nome do jornal em que trabalhava, o JB, segui aliviado o meu caminho. Chegando por lá, pedi que a moça responsável pelo setor dos leitores desse uma atenção maior à carta, que acabou sendo publicada, em parte, dado que o texto era longo, no fim daquela semana.

Três dias depois, estou na redação, quando recebo uma ligação. “E aí meu irmão, tudo bem por aí?”, dizia a voz, que não reconheci. “Sim, quem fala?”, perguntei. “É o Zé, do coletivo da Moreira, tá lembrado?”. Pois é. Era o garotão da cadeia, dessa vez sem muita preocupação com a linguagem refinada. “Tô telefonando prá agradecer. Vimos que você é um cara de palavra. Sujeito homem. Daí que tamo te chamando prá participar de um churrasco com sambão que vai ter aqui na quarta. Tua entrada já tá liberada. Valeu!”.

Prometi a presença e agradeci penhorado. E fique imaginando como era absurda a farra e – vejam só – a minha entrada. Não só porque haveria por lá um jornalista documentando tudo, mas também pelo fato das mazelas da penitenciária terem sido denunciadas, não só na matéria que redigi, como na tal carta que o JB publicou.

De qualquer forma, e não poderia ser diferente, acabei não honrando o convite. Hoje, 30 anos depois, fico pensando qual foi o destino dos líderes do “coletivo”, dado que jamais voltei a encontrá-los. Vale refletir, ainda, que pouco mudou, ao contrário, só piorou.

A propósito: se você tem filho com idade entre 14 e 25 anos, época em que se faz muita besteira na vida, leve o dito cujo para visitar a galeria subterrânea do Ay Franco. Garanto que ele jamais vai burlar o Código Penal.