Não demorou, porém, a ficar agitado, e a disparar novamente contra o seu algoz do dia, diante dos microfones de emissoras de rádio e das câmeras de TV. “Se ficar eleito de novo índio vai rebentar esse juiz safado. Rebentar mesmo. Ele vai ver com quanto pau se faz canoa”.

No segundo semestre de 1986, principalmente quando as eleições de 15 de novembro estavam próximas, vez por outra este que vos escreve era convocado pela chefia de reportagem do JB para fazer a cobertura cotidiana do TRE, que funcionava em um prédio antigo da Rua Primeiro de Março, centro do Rio.

O trabalho era facilitado pelo então presidente, José da Fonseca Passos, que morreu em setembro passado, e que atendia a imprensa com paciência, quando necessário. Mas o ambiente era sempre agitado, pois surgiam denúncias distintas com freqüência, nem sempre procedentes, mas que obrigavam o jornalista a apurar.

No começo de uma tarde de calor intenso, até então tranqüila, estourou uma grande confusão. Dois homens esbaforidos, de terno e gravata, suando em bicas, entraram no TRE, atraindo a atenção geral. O da frente, inconfundível, muito nervoso, repetia uma pequena frase, difícil de compreender à distância. “Indio e turista de índio gemado no Meriti. Indio e turista de índio gemado no Meriti. Não pode gemar gente de câmera. Lei não deixa. Lei não deixa”, dizia a criatura, já cercada pelo pessoal de jornal, rádio e TV.

Era o cacique Mário Juruna, na época deputado federal pelo PDT, em plena campanha pela reeleição, que chegava para apresentar uma reclamação contra “grandão mentiroso da Baixada que não gosta de ouvir verdade”.

Um parêntese: Juruna foi eleito para o cargo em 1982, pelo Rio de Janeiro, embora sua origem fosse uma aldeia xavante do Mato Grosso. Batalhou pela demarcação das terras de seu povo, e fez um punhado de críticas bem fundamentadas à Funai, que desagradava a várias autoridades, daí o trabalho jocoso de desconstrução que se fez de sua pessoa.

Mas o fato é que cismou de se apresentar com frequência em público acompanhado de um gravador, no qual registrava as promessas das autoridades, para provar, no momento conveniente, que não haviam sido cumpridas.

Como isso estava longe de ser prática comum entre os seus pares, e mais, dada a dificuldade em se expressar na língua portuguesa, acabou se tornando figura folclórica. Levando-se em conta ainda que pouca gente mostrava interesse efetivo em sua causa, vinha notando que havia considerável resistência para obter os votos necessários a um novo mandato, o que ajudava a deixá-lo estressado.

No entanto, minutos depois de sua entrada triunfal no prédio do TRE, mais calmo, resolveu explicar que ele e seu motorista haviam sido algemados e detidos por um magistrado de São João de Meriti, durante panfletagem na porta da sede da prefeitura local. E que no fim da manhã a sua prisão fora relaxada, mas, revoltado com o que considerou uma arbitrariedade, foi ao Tribunal apresentar queixa formal.

Não demorou, porém, a ficar agitado, e a disparar novamente contra o seu algoz do dia, diante dos microfones de emissoras de rádio e das câmeras de TV. “Se ficar eleito de novo índio vai rebentar esse juiz safado. Rebentar mesmo. Ele vai ver com quanto pau se faz canoa”. Os repórteres ali presentes, perguntaram, é claro, o que havia ocorrido de fato para que ele fosse preso. E a resposta veio de dedo em riste e em alto som. “Indio acabou batendo boca com gente do Meriti que mostrava cartão de fiscal de merda. E aí juiz safado chegou. E índio disse muita coisa prá ele. Disse que vai brigar sempre contra grandão porque índio defende pequenininho. E que índio manda grandão prá puta que pariu. Manda prá puta que pariu”.

As estações que estavam ao vivo não tiveram como evitar as palavras de baixo calão, algo grave naquela época, em que ainda existiam muitas restrições baseada na conduta moral imposta por mais de 20 anos pela ditadura, encerrada em 1985. O JB, por exemplo, foi obrigado a registrar na sua edição do dia seguinte “o comportamento pouco ético de um deputado federal”, sem mencionar o discurso na íntegra, naquele episódio que acabou ajudando a impedir a continuidade como parlamentar e o começo do afastamento definitivo de Juruna – que morreu em 2002 – da vida política.

O impacto disse hoje seria pequeno. E talvez o índio fosse até reeleito.

 

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