A diretoria vai desistir de erguer um estádio na Avenida Brasil, entre Benfica e Manguinhos, porque a área não oferece a segurança necessária, o que infelizmente é verdade, como prova o noticiário do cotidiano da região.

E o Flamengo terá que esperar mais tempo para realizar o sonho que só existiu, na prática, entre os anos de 1938 e 1950, quando o Maracanã foi inaugurado: passou a ser a casa rubro-negra, e os cartolas de então concluíram que não seria mais necessário investir em outra praça.

Só mais tarde, notadamente a partir da segunda metade da década de 1970, quando o gigante começou a ficar muito caro, cobrando taxas extorsivas, é que o Rubro-Negro voltou a alimentar a idéia de construir um estádio, ou em ampliar a Gávea, palco outrora de grandes espetáculos, mas que havia ficado pequenina demais.

Não é absurdo afirmar que essa última possibilidade existiu até 1982, quando foi inaugurada a Estrada Lagoa-Barra, tornando aos poucos caótico o trânsito do Leblon e dos bairros adjacentes, inviabilizando definitivamente qualquer intervenção no velho estádio.

Um breve parêntese: poucos sabem, mas quando a Prefeitura do Distrito Federal – o Rio era a capital do Brasil – cedeu aquela área ao Flamengo, em 1933, os cartolas que dirigiam o clube tiveram grande dificuldade para aprová-la como espaço para a futura sede esportiva, porque a maioria esmagadora dos sócios alegou que se tratava de “um areal no fim do mundo”, sem transporte público regular, e pior, na visão deles, que tinha uma favela com barracos de palafita – a Praia do Pinto – como vizinha.

Na prática, o local não era tão ruim assim. Quando a Gávea foi inaugurada, em setembro de 1938, já havia, ali ao lado, o Jockey Club Brasileiro, aberto em 1927, e que reunia a nata da sociedade carioca, e o Miguel Couto, um hospital de excelência, inaugurado em 1936. Trata-se agora da região mais valorizada do Rio. Não é à toa que José Bastos Padilha, um rico industrial, amante de corridas de cavalo, presidente do clube na época, é hoje um dos grandes nomes da história do clube, e dá o seu nome ao estádio.

Mas o fato é que desde o fim da década de 1970, diversos projetos, elaborados por gente de valor, foram apresentados e discutidos, e nenhum saiu do papel, porque a cidade começou a crescer desordenadamente, ocupando grandes terrenos da Zona Sul à Baixada. Assim, este histórico é necessário para que se possa compreender que a tarefa de construir um estádio decente foi ficando cada vez mais complicada, e que a atual diretoria é apenas mais uma a lidar com o enorme problema, que surgiu de um erro de previsão que nasceu com a inauguração do Maracanã.

Há uma quase unanimidade em torno da necessidade da construção de um estádio de futebol para o Flamengo. Mas ainda há quem enxergue no próprio Maracanã a solução mais viável e definitiva. Seria tal decisão repetir o equívoco da década de 1950?