A edição de hoje do jornal O Globo traz matéria assinada pelo jovem Bruno Marinho, que mostra como o Flamengo deverá estrear no Brasileiro, no próximo sábado, contra o Vitória, em Salvador. Explica de forma bem resumida que o provável comandante do time, Maurício Barbiéri, pretende colocar em prática o estilo adotado por Pep Guardiola no Barcelona, e que consagrou os dois espanhóis, o treinador e o time, entre 2008 e 2012.

Ler o texto foi o suficiente para lembrar o enredo de 1974 do Salgueiro, criado por Joãosinho Trinta, e que projetava o Reino de França no Maranhão dos tempos de criança do melhor carnavalesco da história. Incredo Incruz, o samba de Zé Di, sustentou na avenida a bela encenação da escola vermelha e branca.

Pois é. Breve relato. O tiki-taka do Barça, ou os seus antecessores, com o nome que se queira usar, necessitava – ou necessita – de três pressupostos básicos: reunir uma maioria de craques, valorizando o toque de cada artista, evitando rifar a bola. Caso não haja um companheiro bem colocado para finalizar, a ordem é retroceder, reiniciando da retaguarda, se possível, a construção da jogada. E é essencial, ainda, que o time tenha um jogador fora de série. O Santos de Pelé, o Palmeiras de Ademir da Guia, a Holanda de Johann Cruyff, e o Flamengo de Zico fizeram isso em outras épocas.

E nos tempos modernos, o maior representante do modelito foi o Barça. Guardiola, na realidade, sofisticou o que os antecedentes fizeram, ampliando a troca de passes, quase sempre curtos, e logo, a posse contínua da bola, valorizando os deslocamentos de atletas que não estão participando efetivamente da jogada, e que vão surgir de repente na área adversária. O esquadrão catalão tinha também pelo menos duas referências, Andrés Iniesta, um apoiador excepcional, e Lionel Messi, um dos cinco maiores craques da longa trajetória do futebol.

Joãosinho fez das matas da Ilha da Assombração um salão de espelhos em candelabros palmeirais, da gente índia a corte real, de ouro e prata um mundo irreal, e numa genial inversão de valores, tornou a nobre européia Ana Jansen em Nhá Jança rainha e deusa do seu Maranhão.

Pois Barbiéri quer transformar seus comandados em Puyol, Busquets, Xavi, Iniesta, Messi, Villa, Henry e Eto’o. Teria o técnico tupiniquim vivido um desvairado devaneio, pois de gênio e louco todos têm um pouco, ou está de fato em pleno gozo de suas faculdades mentais?

Na avenida, a utopia de Joãosinho não só levou a maior escola de todos os tempos ao título de campeã de 1974, como despertou de vez o gênio ainda adormecido do fantástico carnavalesco.

Faria, pois, Barbiéri, do Flamengo de Renê, Arão e Dourado, e similares, o Barça do tiki-taka?