O charutão que fez Zé Gordo beber leite

Havia na Tribuna da Imprensa um redator de primeira linha, que vamos chamar aqui de Zé Gordo, para não ferir suscetibilidades. Tinha duas tarefas principais no jornal: passar um pente fino nos editoriais, com atenção especial aos textos enviados por colaboradores, e cuidar da primeira página. Era notável na elaboração da manchete do dia e dos títulos das demais chamadas. Ninguém fazia igual.

Mas seria demais exigir que uma criatura genial pudesse ter um comportamento normal. Chegava atrasado com freqüência. Havia ocasiões em que desaparecia da redação em horários de pique. E tinha, como se diz, um fraco pela bebida, como dezenas de jornalistas de tempos mais românticos.

Era comum ver Zé Gordo fazendo o fechamento com três ou quatro doses acima dos companheiros de redação, inclusive dos colegas de copo, sem que o trabalho sofresse prejuízo. O cheiro do álcool às vezes era insuportável, provocando reclamações, inclusive de uma diagramadora de idade avançada que odiava bêbados, pois era sectária de uma seita radical de abstêmios.

Vale lembrar que os sumiços do nosso personagem eram breves, mas assustadores, porque o chefão do jornal cobrava diretamente desse que vos escreve, que ocupava o cargo de secretário de redação. Numa ocasião, em dia de grandes decisões em Brasília – o pão nunca cai com a manteiga para cima – Zé Gordo mal chegou ao serviço e avisou a um contínuo. “Vou tomar um troço e já volto”. Eram três da tarde. Deu oito e nada do monstro.

Como eterno responsável pelo seu destino, saí para procurá-lo. A Lavradio era farta de bares. Em qual deles o cidadão estaria? Curiosamente, não precisei ir muito longe. Fui encontrá-lo dormindo sobre duas mesas, leve sorriso nos lábios, no fundo do Sabará. Suava e roncava como um urso. Ao lado, um sanduíche de queijo com uma única mordida, e um copo com um dedo de leite no fundo.

Tratei de acordá-lo, com jeitinho, é claro. Aliás, é importante explicar que apesar da postura desregrada, Zé Gordo era notadamente educado, jamais levantava a voz, e raramente proferia palavrões. Despertou, e ainda sonolento, sentou sobre seu corpo gigantesco, pediu desculpas e passou a narrar o que lhe ocorrera. “Você sabe, eu moro com a minha irmã, e antes de sair de casa o meu sobrinho, garoto novo, sangue bom, apertou um charutão, que dividimos até a última pontinha. Bebemos duas cervejinhas e vim prá cá. Mas quando cheguei aqui, senti a pressão cair, tonteira, vertigem, o escambau. Loucura. Não bateu bem, sabe? Daí, desci prá comer qualquer coisa e tomar um leitinho. Veio um sono incontrolável e acabei dormindo aqui mesmo”, disse.

Para quem não sabe, existe uma lenda segundo a qual o leite corta o efeito da erva, ao que parece um mito, mas que pode funcionar sob o aspecto psicológico. Como Zé Gordo já parecia refeito do mal-estar, “inteiramente fora da normalidade”, como ressaltou, convidei-o para regressar à labuta.

A doce criatura pediu “uma minissaia e um steinhaeger prá acordar direitinho”, e após saboreá-los, acatou o pedido. Ao entrar na redação, foi aplaudido de pé, e como a turma já havia encaminhado o fechamento para não prejudicá-lo – jornalista às vezes é solidário – o nosso personagem não teve problemas para terminar o serviço. Antes de deixar o jornal, Zé Gordo me deu um abraço, e disse que ia “agradecer ao Sabará”.

Tomei meia dúzia de longas providências para o dia seguinte – ainda não havia os recursos eletrônicos de hoje – e também desci, quase uma hora depois. Pois lá estava o nosso personagem, “agradecendo” ao Sabará, meia dúzia de cervejas sobre a mesa.

No dia seguinte, ao chegar, a voluptuosa criatura fez questão de explicar que dera “um esporro” no sobrinho, que não lhe avisara devidamente sobre “a violência daquela erva”. E trabalhou normalmente, ou seja, três ou quatro doses acima dos companheiros.