O Indio da Tribuna
Os jovens que habitam as redações de hoje, com zilhões de eletrônicos, não podem imaginar o que era depender dos raros recursos que existiam na década de 1980. A extinta Tribuna da Imprensa possuía apenas dois aparelhos de TV na redação. Um era exclusivo da chefia. O outro, compartilhado pela redação, ficava preso por uma haste, no alto de uma pilastra, e para executar a mais simples das operações, trocar o canal, por exemplo, era preciso subir numa cadeira, porque o controle remoto havia desaparecido.
O aparelho coletivo era bem antigo, e num belo dia, é claro, quebrou de vez. Logo, ficou difícil de acompanhar os jogos noturnos, pois a sala da chefia era trancada após o fechamento da primeira página, logo depois do Jornal Nacional. Assim, o pessoal do esporte era obrigado a fazer crônicas pelo rádio, o que impedia naturalmente de opinar sobre qualquer lance polêmico.
Depois de 15 dias, o Roberto Porto, um dos grandes amigos que fiz na vida, e que infelizmente já se foi, decidiu que nós deveríamos tomar uma providência, dado que a direção da Tribuna não mostrava o menor interesse em fazê-lo. Eis que alguém comentou. “O Indio é técnico em televisão. Sabe tudo. É só chamar que ele vem”.
O dito personagem era um aposentado que passava os dias nas redondezas do jornal, quase sempre no bar do Sabará. O Roberto não gostou muito da idéia, pois o cidadão tinha um fraco pela bebida. Mas acabou concordando. E eis que chegou o Indio, balançando como bambu ao vento, os olhinhos vermelhos, e um bafo insuportável do líquido que vem dos canaviais. Subiu numa pequena escada, e arrancou a TV da pilastra, proporcionando um espetáculo assustador, pois passou a equilibrar o aparelho sobre a cabeça, num esforço extraordinário para não deixá-lo cair e se espatifar sobre as mesas e as máquinas de escrever.
Quando alguém oferecia ajuda, o bravo selvagem reagia, negando aos urros qualquer colaboração. Logo, a redação parou de trabalhar, orando para que a sua missão tivesse êxito. Pois Indio conseguiu caminhar aos trancos e barrancos com a TV sobre a cabeça, e desceu as centenárias e estreitas escadas de madeira da Tribuna – o prédio é dos tempos do Império – seguido por pelo menos 10 pessoas, que diziam barbaridades, na prática uma autêntica troça, dado que o valente pinguço jamais deixou de balançar em seu fantástico trajeto. E foi assim que o aparelho chegou são e salvo ao lar doce lar de Indio, uma casinha da vila vizinha ao jornal, na Rua do Lavradio.
Quando o povo voltou à redação, Roberto disse em alto e bom som. “Vocês pensam que acabou? Agora é que vem o pior! O conserto! Ele desmonta a televisão e nunca mais consegue arrumar as peças!”. Não deu outra. Dois dias depois, fomos à noitinha os dois Robertos, o Porto e este que vos escreve, até a choupana do Indio. Tinha parafuso para tudo que era lado. O tubo de imagem quebrado. A tela… enfim… E o responsável pela, digamos, cirurgia, sentado num sofá, sem conseguir articular uma frase. Um horror.
Ficou evidente que a vida da brava TV havia chegado ao fim. Pois a administração da Tribuna, que até então não havia mostrado qualquer preocupação com a saúde do aparelho, tão logo soube do desastre, começou a caça às bruxas. Quem indicou o Indio? Quem autorizou o conserto? Quem vai repor? O Porto, sempre esperto, conseguiu convencer que a TV já não prestava para mais nada quando saiu da redação. “Era um lixo só. Um dia desligou sem ninguém mexer e soltou uma fumacinha por trás, a gente pensou até que fosse explodir, teve gente que saiu correndo…”. E a coisa acabou em pizza.
No entanto, como castigo, ficamos sem TV, fazendo crônica pelo aparelho do bar, ou melhor, 80 minutos no Sabará, e os 10 finais, para apressar o fechamento, pelo rádio. Pois é. Como fazia falta um simples celular na década de 1980, não?
A propósito, o Indio protagonizou uma outra história, mais trágica, que narraremos em outra ocasião