Desde a década de 1990 que jornais, revistas, emissoras de TV e institutos de pesquisas tentam vez por outra transformar a torcida do Corinthians na maior do Brasil. A força do clube paulista é indiscutível. Há alvinegros por todo o país. Mas os próprios números divulgados com alguma freqüência provam que a do Flamengo continua na ponta.

Na realidade, a superioridade é uma herança do tempo em que o futebol ainda era amador, e que os meios de comunicação não tinham os recursos de hoje, e logo, a capacidade para ir muito além das suas divisas.

Pois é. Uma tese badalada defende – como verdade absoluta – que os clubes cariocas conseguiram maior popularidade fora do Rio de Janeiro porque a sede da Rádio Nacional era na cidade, que foi capital federal até 1960. A emissora surgiu em 1936, e passou ao controle da Ditadura Vargas em 1940, possuindo as melhores instalações e equipamentos, alcançando praticamente todo o território brasileiro. Assim, pela proximidade, privilegiava as transmissões dos jogos de Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco, o que levou os quatro a ganhar maior quantidade de fãs do Amazonas ao Rio Grande do Sul.

Ocorre, no entanto, que quando a Nacional entrou no ar, o futebol já havia estabelecido raízes no país inteiro. E a popularidade do Flamengo começou justamente naquelas primeiras décadas do século passado, quando passou a espalhar o seu prestígio em âmbito nacional.

Vamos aos números. O Corinthians, fundado em 1910, só saiu pela primeira vez do eixo Rio-São Paulo em 30 de maio de 1929, quando perdeu por 4 a 2 para o Atlético-MG, em Belo Horizonte. Até então, deixara o estado natal em apenas sete ocasiões, para enfrentar clubes cariocas, no Rio.

Pois o Flamengo, que começou a jogar futebol em 1912, e visitou até 1929 seis estados diferentes, de Norte a Sul, a saber: Espírito Santo, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco e São Paulo. Um exemplo das andanças do Rubro-Negro: excursão ao Paraná, em 1914, com três partidas, ao Pará, em 1916, jogando cinco vezes, com paradas em portos diversos, e a Pernambuco, em 1925, com cinco compromissos e boa divulgação por jornais de todo o Nordeste. Vale ressaltar que o Rio não era apenas s sede do Governo, mas já gozava da fama de Cidade Maravilhosa, o que ajudava a fazer de seus representantes atrações óbvias em todo o país.

Alguém dirá que tais números têm 100 anos. E que outros fatores, é claro, contribuíram ao longo do tempo para ampliar a popularidade do Flamengo, notadamente grandes ídolos, como Leônidas da Silva e Zizinho, os tricampeonatos conquistados em 1944 e 1955 – aí sim bastante badalados pelo poder do rádio –, o supertime de Zico e os títulos nacionais, e a evidente identificação das massas com o clube vencedor. Sem dúvida. Mas as origens, perpetuadas ao longo das gerações, estão nas décadas de 1910 e 1920, quando a bandeira rubro-negra começou a tremular de Norte a Sul.