O Flamengo perdeu pouco mais de 33 mil sócios-torcedores em 2018. E teve a média de 11.332 pagantes por jogo no Estadual. O marketing do clube fez um breve estudo para conhecer os motivos que determinaram números tão pobres. Isso, é claro, era necessário, para fazer um trabalho correto. Mas as respostas foram óbvias. A falta de um estádio decente, com a impossibilidade freqüente do Maracanã, talvez seja a mais lógica. O sistema de atendimento também inibe o pretendente. A obrigatoriedade de jogar duas vezes pela Libertadores sem público na Libertadores, e o chamado “esvaziamento do Estadual”, evidente na média citada, são outros vilões representativos da queda.
Seria um exagero lançar toda a culpa pelo flagrante desinteresse sobre os cartolas. A própria iniciativa de elaborar um programa para ampliar a quantidade de associados, embora providência comum hoje em dia em todo o planeta, já é digna de aplausos. No entanto, seria de uma ingenuidade absurda isentar por completo o procedimento da diretoria do clube nesse processo, pois alguns equívocos cometidos nos últimos anos também contribuíram para a fuga do torcedor.
O primeiro deles é uma herança maldita de mandatos anteriores, ou seja, a desvalorização do Estadual, competição centenária, que teve participação fundamental na formação do próprio futebol brasileiro, origem das grandes rivalidades e símbolo da hegemonia regional.
Na segunda metade da década passada, dirigentes e técnicos – do Flamengo e dos outros três gigantes do Rio – começaram a privilegiar a escalação de times reservas, a realização de jogos em palcos pouco atrativos, e a elaboração de regulamentos excêntricos, que foram paulatinamente arrancando a motivação do torcedor. É como você investir uma fortuna em uma peça de teatro, e no dia da estreia avisar ao público para não comparecer, pois o autor é insignificante, os atores amadores e a casa de espetáculos da pior qualidade, sem ar condicionado e com poltronas rasgadas. Mas é fato que a propaganda ruim foi tanta que o torcedor acabou acreditando. E deu no que se vê agora.
Vale ressaltar que a imprensa – falada, escrita e televisada, como se dizia antigamente – também tem a sua parcela de culpa nisso, colaborando para ampliar o quadro negativo, dando todos – clubes e mídia – o que se chama de tiro no próprio pé.
Parece ainda, em outro contexto, que a estratégia de praticar vez por outra preços estratosféricos para os ingressos, praticamente obrigando a adesão de todos ao programa de sócio-torcedor, não está sendo eficiente, pois o valor é excessivo para a realidade brasileira em qualquer circunstância, o que começa a criar um novo e gravíssimo fenômeno – tolher não só o crescimento, mas a renovação da Nação Rubro-Negra.
É preciso incentivar a criança a gostar de futebol, a escolher um clube, e isso se faz em grande estilo tendo a oportunidade de levá-la ao estádio, curtindo os ídolos de perto, presenciando as festas pelas vitórias.
O Brasil é basicamente um país de necessitados, e se esses não têm a chance de levar os filhos ao campo, não surgirão novas massas torcedoras. Isso é o óbvio. E o Flamengo será sempre o maior prejudicado em tal situação.
É importante também tecer algum comentário sobre o quesito essencialmente técnico do processo de captação de sócios-torcedores, e que passa pelo tal sistema de atendimento. Uma parte representativa da galera não tem cartão de crédito, em muitas ocasiões não acessa a internet, não possui impressora, e paga quase tudo com dinheiro em espécie.
E mais: torcedor não raciocina com a razão, mas quase sempre com a emoção à flor da pele – logo, se os títulos não aparecem, ele se sente enganado, e desconfia de qualquer programa de adesão que lhe for apresentado, notadamente se for caro. Enfim, ele desiste de colaborar.
Assim, não seria exagero se os cartolas fizessem uma reflexão, e tentassem compreender o mundo além das suas realidades, de acordo com universo do clube que dirigem.
A propósito, os jornais publicaram que a receita do Flamengo em 2017 foi recorde. Logo, para encerrar, vale lembrar que a engorda ocorreu com a negociação de dois jovens das divisões de base, Jorge e Vinícius Júnior, e com o dinheiro da TV. Ótimo. Mas se fossem seguidos alguns dos preceitos aqui mencionados, talvez o lucro alcançasse o dobro.