Ganhar e perder. Contingências da vida. O Flamengo, que surgiu como um clube de regatas, e alcançou a consagração definitiva com o futebol, começou e estará sempre sujeito a tais eventualidades, seja qual for a competição, no gramado, na quadra, no mar.

No entanto, para o autor destas linhas, o Rubro-Negro representou, desde o primeiro contato uma forte identidade com o universo que o cercou desde criança, as maravilhas e mazelas do Rio de Janeiro, a riqueza e a miséria de sua gente, a alegria e a tristeza do seu cotidiano, na prática uma religião que congrega cores, símbolos, cultos e rituais próprios. E como se não bastasse, algo acima da nacionalidade – que é fruto apenas de mera casualidade.

Perder é sem dúvida o que há de pior na vida. Aborrece e desestimula. E ganhar é o êxtase maior. Traz um inexplicável sentimento de superioridade. Mas o autor aqui não comete nenhum absurdo ao garantir que o imponderável do esporte – ganhar ou perder – não é capaz de arranhar a visão abrangente de tudo o que o Flamengo traz no seu âmbito.

Muitos poderão afirmar que transformar um clube em algo próximo de uma religião, é um tremendo exagero. E, no entanto, é importante ressaltar que existem milhões de ateus, e mais, que cada um tem o direito de enxergar o mundo ao seu jeito, de acordo com a sua própria avaliação. Assim, vê o sacrilégio – no sentido de desrespeito a uma prática dita sagrada na essência da palavra – apenas como obediência a uma verdade estabelecida e imposta.

Vale dizer mais. Desde o surgimento do esporte, em seu berço esplêndido, o Reino Unido do Século XIX, os clubes representaram as origens das várias sociedades que criaram bairros e cidades, colônias estrangeiras, escolas, fábricas e sindicatos, e até grupos políticos e religiosos.

Daí que uniformes e escudos não tardaram a se confundir, utilizando símbolos que estavam ligados aos segmentos citados, ou que passaram, com o tempo, e numa visão inversa, a dar-lhes a identidade definitiva que superou estádio, campo ou ginásio para se tornar um aliado – ou a parte mais valiosa – do cotidiano de quem carrega um clube no coração.

Tanto que isso criou um comportamento às vezes absolutamente radical, pois milhares de pessoas, no mundo inteiro, jamais utilizariam, por exemplo, o vermelho sob qualquer hipótese, se for essa a cor que lembra o rival ou antagonista, ou um simples pássaro amarelo, caso seja esse o símbolo do seu mais ferrenho adversário.

Para deixar ainda mais evidente a identificação do autor, é fundamental também explicar que o Flamengo surgiu num contexto de grandes transformações de natureza econômica, social, política e cultural. O Brasil, notadamente o Rio de Janeiro, então Capital Federal, começava a deixar para trás o entulho monarquista, renovando as esperanças de que a expectativa gerada pela chegada de um novo regime trouxesse uma vida melhor em todos os sentidos, enterrando o atraso que mantinha a cidade e o país distantes do progresso.

Numa ordem cronológica, o Flamengo nasceu um pouco depois da Abolição da Escravatura, da Proclamação da República, do jogo do bicho, do telefone, dos bondes elétricos, e um pouco antes do cinema, do automóvel, da indústria fonográfica, e mais, do futebol, do samba e das religiões africanas entrarem definitivamente no cotidiano da vida carioca e nacional.

O Flamengo vai conviver também, em seus primeiros anos de existência, com as primeiras manifestações do movimento feminista, com o tímido surgimento de uma literatura essencialmente nacional, com o começo da chegada de grande quantidade de imigrantes, com o aparecimento das primeiras favelas, com as doenças transmissíveis que ainda faziam do Rio, naquela virada de século, um lugar às vezes inabitável – e logo em seguida com a política da erradicação das epidemias, levada adiante pelo médico Oswaldo Cruz, que acompanhou a política do “bota-abaixo” posta em prática a partir de 1902 pelo prefeito Francisco Pereira Passos, e que mudou para sempre a cena urbana da cidade.

Mas o Flamengo será antes de tudo parte importante do crescimento do esporte como atividade física e entretenimento, pedindo licença para integrar definitivamente a vida social carioca e do próprio país, num processo em que o clube, pela dimensão que alcançará, terá importância absolutamente fundamental.

Sendo assim, pois, ganhar e perder, como dito, são contingências do esporte e da vida. E a religiosidade encarnada e negra, como pode ser compreendida aqui, faz parte de um sentimento duradouro, que continuará caminhando com as suas botas de sete léguas.