O Flamengo colocou quase 50 mil pessoas ao Maracanã numa tarde terça-feira, dia útil, para acompanhar um simples coletivo. O ingresso custava um quilo de alimento não perecível. E lá estava o velho torcedor, aquele que empurra o time de verdade, que enxerga o futebol de longe, e logo, cobra com razão quando percebe que o time vai mal das pernas. Teve até cambista em torno do estádio, o que seria uma novidade em se tratando de treino, não fosse o Flamengo um pioneiro em períodos distintos na história do esporte no Brasil.

Pois o povão compareceu, fez a festa, e só pressionou a diretoria, de maneira educada, pedindo ingressos a preços mais baratos. O presidente Eduardo Bandeira de Melo deu uma explicação razoável, alegando que o clube teria um punhado de problemas – “pagaria para jogar”, por exemplo – e não resolveria nenhum.

Não há dúvida de que é necessário um equilíbrio no orçamento e na sua execução. Assim sendo, e fazendo aqui o papel de advogado da galera, e do próprio futuro do clube, vamos repetir: parece que a estratégia de praticar vez por outra preços estratosféricos para os ingressos, praticamente obrigando a adesão de todos ao programa de sócio-torcedor, não está sendo eficiente, pois o valor é excessivo para a realidade brasileira em qualquer circunstância, o que começa a criar um novo e gravíssimo fenômeno – tolher não só o crescimento, mas a renovação da Nação Rubro-Negra. É preciso incentivar a criança a gostar de futebol, a escolher um clube, e isso só se faz em grande estilo tendo a oportunidade de levá-la ao estádio, curtindo os ídolos de perto, presenciando as festas pelas vitórias.

O Brasil é basicamente um país de necessitados, e se esses não têm a chance de levar os filhos ao campo, não surgirão novas massas torcedoras. Isso é o óbvio. E o Flamengo será sempre o maior prejudicado em tal situação.