Até a primeira metade da década de 1980, o centro do Rio fervilhava na época do Natal. A área recebia enfeites apropriados, e as vitrines permaneciam iluminadas, enchendo a alma dos seres humanos de alegria.

Mas nem tudo era perfeito. No comecinho de uma daquelas noites, dois pilantras aproveitaram o clima festivo, pleno de paz e amor nos corações, para praticar um assalto a uma joalheria da Cinelândia.

A idéia da dupla era boa. Ambos vestiram trajes de Papai Noel, com as longas barbas brancas, botas pretas e sacos de presentes nas mãos, e foram para aquela região tradicional da cidade, onde tantos outros circulavam, contratados pela prefeitura e pelo comércio, como era comum naqueles tempos.

As lojas ampliavam o som do “Jingle Bells”. Pais e filhos andavam pelas calçadas, faziam as suas compras, espiavam o grande presépio. E os dois elementos aguardavam apenas o movimento diminuir um pouquinho para entrar em ação.

O problema é que a dupla não conseguiu incorporar por completo o espírito da maior data cristã. Em dado momento, uma menina solicitou-lhes uma foto, e foi rechaçada de forma bastante grosseira, irritando profundamente o papai dela, que apresentou queixa imediata aos soldados da rádio-patrulha de plantão.

Disse o zeloso cidadão que ao se aproximar notou que os, digamos, bons velhinhos, eram notadamente mal-encarados, e que um deles chegou a rosnar palavras de baixo calão, provocando na pobre criança um princípio de choro. Não estavam, pois, definitivamente, preparados os dois elementos, para o papel a que se prestaram, dado que num simples contato acabaram despertando suspeita e temor.

Mas o fato é que apresentada a reclamação, quase formal, os policiais não tiveram alternativa. Abordaram os dois elementos, e encontraram, durante a breve revista, duas pistolas de grosso calibre, que carregavam nas cinturas.

Levados até a delegacia mais próxima, descobriu o comissário que eram foragidos da Lei, e procurados pela prática de assalto a um hotel, sendo devidamente encaminhados ao xadrez. Antes, confessaram o objetivo.

O fato, é claro, foi comunicado pela própria polícia, que tinha o hábito de telefonar para as redações quando efetuava prisões importantes – que por quaisquer circunstâncias não haviam chegado à imprensa e ao conhecimento público – ou quando surgiam casos evidentemente curiosos.

Quando os repórteres chegaram ao distrito a dupla ainda estava vestida de Papai Noel. E assim foram fotografados. O comissário, no entanto, fez o favor de mandá-los para a cela de camiseta, short e chinelinho, temendo o que lhes poderia acontecer se surgissem por lá vestidos a caráter. Pois é. Jingle Bells, jingle all the ways.