Aconteceu em 1987. Os camelôs de praia vendiam pequenos balões inflados, em forma de coração, puxados por cordinhas, que faziam a alegria da criançada. Fabricados com papel prateado, brilhavam a qualquer distância, quando expostos ao sol. Foi essa ilusão de ótica que promoveu uma tremenda algazarra na Praia do Arpoador, extensão de Ipanema, num feriado daquele ano, quando um grupo de banhistas, percebendo o bibelô boiando, bem além da arrebentação, se alvoroçou em gritar. “Olha a lata! Olha a lata!”.

Como num passe de mágica, centenas de pessoas deixaram seus afazeres, e correram para a beira da água, fosse para observar a euforia que tomou conta da galera, ou iniciar uma ousada prova de natação na direção das Ilhas Cagarras, próximo de onde reinava, ao sabor da marola, o intrépido balãozinho.

Vale esclarecer aos mais jovens, mesmo que já seja do conhecimento público, que em meados de setembro de 1987, uma quantidade absurda de latas de conserva contendo maconha – hoje se sabe que eram 15 mil delas – foi dispensada de um navio de bandeira panamenha, chamado Solana Star, ainda em alto mar, quando a sua tripulação tomou conhecimento que a polícia costeira fora acionada para interceptá-lo.

Arrastadas pela correnteza, as latas não tardaram a chegar, como cardumes, às praias do Rio e de São Paulo, permanecendo no raso, ou na areia, de bobeira, ao alcance de qualquer um. E como ser humano é curioso, bastou que um deles abrisse a primeira delas para descobrir o que havia em seu interior.

Faz-se necessário explicar também que a maconha – de acordo com quem provou – era de ótima qualidade, e que a posse de uma pequena quantidade do, digamos, produto, naquela época, era suficiente para conduzir o portador à cadeia.

Aqui um parêntese: este que vos escreve – e que era repórter do JB – não mostrava nenhuma satisfação quando era escalado para cobrir movimento de praia, porque dificilmente acontecia algo capaz de contar alguma história para chamar a atenção do leitor, e é claro, ocupar espaço nobre na edição do jornal. Naquela ocasião, a rotina se manteve, até o momento em que o bibelô prateado deu o ar de sua graça.

O Arpoador estava lotado, naquele feriadão, e os policiais, imediatamente alertados pelo alvoroço, cercaram a área próxima às pedras, o que provocou ainda maior confusão. Sim, pois a partir de um dado momento, as centenas de pessoas se transformaram em uma multidão inquieta, o que incomodou os homens da Lei, nervos à flor da pele, com cassetetes nas mãos, dado que na prática não podiam prender ninguém, porque não havia qualquer flagrante.

A propósito, o autor deste texto chegou a ouvir alguns banhistas propondo o aluguel de um barco para resgatar a “lata” que boiava. Para quem não é do Rio, é preciso esclarecer que tal providência era improvável, pois nunca existiu esse tipo de serviço por ali. Aliás, para chegar até as Cagarras na braçada é fundamental que o cidadão seja um exímio nadador. Assim, restava apenas aguardar que a correnteza trouxesse a prenda até a praia.

Outro parêntese: quando o primeiro grito de “olha a lata!” surgiu, atraindo a atenção do povo, muita gente prestava atenção no veterano Bob Lester, aquele que passou décadas jurando que pertencera ao Bando da Lua, o grupo que acompanhava Carmen Miranda. O artista apresentava seu show improvisado na Praia do Diabo, ali do lado, passando o chapéu a cada 15 minutos, e sua audiência ficou reduzida a quase zero.

Mas é fato que o tempo foi passando, e quando enfim superou a arrebentação, a “lata”, trazida pelas ondas, rapidamente revelou a sua verdadeira face, a de bibelô infantil, para frustração da galera, que disparou uma vaia absurda, iniciando em seguida a dispersão.

Este repórter, porém, teve algo para contar, além do preço exorbitante da água de coco, da presença de gringos encantados com a beleza da cidade, e dos guardadores de carros extorquindo os motoristas.

Um detalhe jamais considerado: se as latas chegaram às praias em setembro e outubro, e se o produto que continham foi consumido em larga escala na sequência, não houve verão, mas sim “primavera da lata”. É claro, no entanto, que a licença poética acabou prevalecendo.