A expressão “Clássico dos Milhões” surgiu na década de 1950, após a construção do Maracanã, mas Flamengo e Vasco reúnem multidões desde os primeiros duelos nas regatas realizadas na marina da Praia de Botafogo, no finzinho do Século 19. E é essa rivalidade de 120 anos que ambos arrastam hoje para o Maracanã, na partida do turno do Brasileiro.

Muita gente desinformada costuma dizer que quem vive de passado é museu, quando o adversário começa a mencionar fatos relevantes e conquistas de outros tempos, o que é um equívoco irreparável quando o assunto é Flamengo x Vasco, pois ninguém torce para clube sem títulos importantes. A paixão começa pela sequência de vitórias e prossegue com o acúmulo delas.

É provável até que a maioria esmagadora dos jogadores que estarão em campo na noite de hoje não saiba, mas a fantástica expectativa que cerca essa decisão é uma sobretudo uma herança dos heróis rubro-negros e cruz-maltinos que ganharam, com o esforço de suas braçadas, enfrentando marolas e ventanias, as primeiras provas no remo, estabelecendo, através dos seus clubes, a importância de origens, tendências e identidades que foram passando de pai para filho.

Quando pisarem o gramado do Maracanã, diante dos olhos atentos de milhões, de Norte a Sul do País, os 22 jogadores estarão dando seqüência a essa saga, que nesse mais de século de história ajudou a ter uma atuação de destaque na composição do caráter nacional brasileiro. Sim, no começo, o Rubro-Negro abraçando a classe média dos bairros que formavam a região importante do Rio da Belle Époque – Botafogo, Catete, Flamengo, Laranjeiras, Praia Vermelha – e o Vasco a colônia portuguesa, e mais tarde, ambos já no futebol, arrebatando o povão.

O duelo começa às 19 horas. E embora os protagonistas não tenham muita consciência disso, vai valer mais uma vez a mesma vontade de vencer que mostravam os remadores do Século 19. E levando-se em conta o que tudo isso representa, seria interessante que os contendores lembrassem Nélson Rodrigues, quando o gênio disse que em futebol o pior cego é o que só vê a bola. Porque nesse clássico a coisa vai bem adiante das quatro linhas.