A história da semana não tem muita graça. Em 1986, o Brasil ainda saía do longo período ditatorial. E o direito de greve continuava sendo questionado. Numa bela manhã de sol, em pleno verão, os coveiros da Santa Casa decidiram cruzar os braços. Daí, muito mais grave do que os vários conflitos entre os trabalhadores e a repressão, dentro e fora dos cemitérios, foi testemunhar o sofrimento das famílias, que não conseguiam enterrar os seus mortos.

Logo no primeiro dia do movimento, a reportagem do JB, integrada por este que vos escreve, percorreu três cemitérios: o Caju, o São João Batista, e o dos Ingleses, o menor deles, próximo do Morro da Providência. Os maiores problemas estavam no Caju, local no qual se concentravam os líderes do Sindicato dos Empregados em Instituições Beneficentes, Religiosas e Filantrópicas.

Na discussão irracional, se a greve era ou não legal, o caos era total. Os dirigentes gritavam palavras de ordem, os coveiros acompanhavam, a polícia entrava em ação, e os enfrentamentos, generalizados, chegavam a invadir as capelas, derrubando não só os caixões, mas também as pessoas – incluindo os idosos – que tentavam velar os parentes.

O Caju realizava, então, 60 enterros por dia, dado suficiente para que se possa calcular a confusão. Que se generalizava porque, pelo menos naquela época, a Lei obrigava que os mortos só fossem sepultados – em túmulos ou covas rasas – por mão de obra especializada. Além disso, os sindicalistas trataram de tornar indisponível o material necessário para o serviço – pás, picaretas, enxadas, baldes, cal, cimento, e é claro, os chamados carrinhos funerária.

Parecia difícil, naquele primeiro dia, que pudesse ocorrer um acordo com a direção da Santa Casa, pois nenhuma das partes queria ceder. A reivindicação dos grevistas era robusta. Exigiam, além do reajuste salarial de 40%, um adicional significativo de insalubridade, e até uma forma de auxílio em casos especiais. “Teve um colega que apanhou uma hérnia inguinal, quando levantou um caixão com quase 200 quilos, e outro que pegou uma doença esquisita depois de fazer uma exumação, porque a gente acaba tendo contato com toda sorte de insetos. O índice de alcoolismo aqui é alto, porque muitos recorrer à bebida para suportar o cotidiano. E ninguém paga o tratamento?”, contou um coveiro.

Por volta do meio-dia, o crematório já estava desativado, e cerca de 20 famílias já lutavam não apenas pelo direito aos sepultamentos, mas para impedir que as brigas causassem danos aos mortos. Ficou para sempre na memória deste repórter a cena de um pequeno caixão tombando, a tampa abrindo, e o cadáver de uma criança de quatro anos presumíveis rolando pelo chão. Vocês, jovens, que desejam abraçar a profissão de jornalista, fiquem desde já sabendo como funciona.

Foi a partir do começo da tarde que o drama aumentou, porque os corpos começaram a se acumular no saguão principal do cemitério, num espaço exíguo, sem que houvesse qualquer previsão para que a situação fosse normalizada. O calor intenso do verão carioca não ajudava em nada. E não tardou para que as funerárias cancelassem as remoções. “O morto chega aqui, volta prá lá, e depois tem que vir de novo. Três viagens não dá, tá acima do orçamento”, explicou um agente. As pessoas passaram a prestar em delegacia e houve quem ameaçasse buscar socorro na Justiça.

Os cemitérios, naquela época, ainda permaneciam abertos ao longo da madrugada. A vigília foi mantida. No segundo dia, o mau cheiro já se fazia sentir. Mas, apesar da proibição, a Santa Casa solicitou auxílio a ex-funcionários e biscateiros. E a polícia passou a fazer vista grossa para a irregularidade. Diante do caos, a prefeitura autorizou o aproveitamento de garis, mesmo que também não fossem especializados no serviço. Melhor assim.

No terceiro dia, o Sindicato, considerou que o pedido estava acima da realidade, os patrões concordaram com parte das reivindicações, e os empregados voltaram ao trabalho, normalizando aos poucos a situação. E o jornalista também respirou aliviado. Dias melhores teriam de vir.