O Cine-Teatro Iris, inaugurado em 1909, outrora freqüentado pela elite do Rio, entrou em decadência a partir da década de 1970. Passou a ser reduto de desempregados e vagabundos, principalmente de gente que vivia na rua, e aproveitava o preço barato dos ingressos para assistir filmes pornôs, de dia, e shows de strip-tease, á noite. Ou para se esconder. Ou simplesmente dormir.

Como as obras exibidas no telão e as peças promovidas no palco não tinham propriamente enredos, as sessões eram abertas, ou seja, os espetáculos começavam no momento em que o espectador chegava. Assim, a rotatividade do público era grande, e a freqüência, como dito, a pior possível. Muitos satisfaziam seus desejos íntimos ali mesmo, na platéia, sem dar qualquer importância aos vizinhos.

O Iris, na Rua da Carioca, integra a área conhecida por Cinelândia, nobre no começo do século passado, e que foi perdendo a elegância e a importância quando a cidade começou a alçar voos para bairros além do Centro.

O cinema, hoje com 109 anos, resistiu bravamente ao tempo, e é tombado pelo Patrimônio Cultural. Este que vos escreve fez algumas reportagens por lá, uma delas mostrando as belezas de seu interior, estilo art noveau, com azulejos belgas, espelhos franceses, e seu indisfarçável clima de Belle Époque. As outras, no entanto, foram publicadas nas páginas policiais. E pelo menos uma, absolutamente inusitada, é inesquecível.

Foi numa tarde de 1987. Enquanto um homem e uma mulher chegavam ao clímax, diante do filme em cartaz, e em meio ao agitado entra e sai do banheiro masculino, veio de lá um grito que sugeriu alguém em perigo, na realidade em pânico, tal o eco que provocou no escurinho da sala de exibição, abafando os sussurros de prazer dos espectadores, que atingiam o orgasmo juntinho com o casal.

Naquele momento, num reservado do movimentado toalete, um indivíduo abraçava outro repentinamente por trás, e segurava, com uma das mãos, o pênis do semelhante, que urinava ao seu lado. Com a outra, ameaçava ceifar-lhe o membro, caso o mijão não lhe entregasse o que levava nos bolsos.

Ao sentir a arma afiada que começava a cortar o seu pirulito, e diante do sangue que já pingava, a vítima gritou desesperadamente em busca de socorro, atraindo a atenção de todos, provocando a correria dos seguranças da casa na direção do banheiro, e obrigando o operador a acender as luzes do cine-teatro, paralisando inclusive o entusiasmo dos onanistas de plantão.

Mas o punguista não largou a coisa do rapaz, permanecendo firme no propósito de atingir o seu objetivo, deixando os dois leões de chácara paralisados. Sentindo a aproximação dos brutamontes, o ladrão arrastou o refém para um canto. Quanto mais acuado, mais apertava a geba daquela presa, indefesa e apavorada. Ali, naquele momento, e embora perturbado, já notara que não havia solução, e que o melhor seria entregar os pontos, pondo um fim ao circo que armara. Logo, só continuava resistindo por orgulho.

Lá fora, uma pequena multidão também esperava pelo desfecho, fazendo muito barulho, mesmo que não soubesse exatamente o que se passava lá dentro. E quando a situação já caminhava para um impasse, a polícia, alertada pelo tumulto, entrou no Iris, e após dez minutos de papo, voltou com o meliante – um homem branco, forte, cicatriz no peito – a tiracolo. A vitima, um nordestino magrinho, com o rosto coberto de espinhas, tomou o rumo do hospital, com o bráulio machucado, mas inteirinho no lugar.

É evidente que os repórteres só conheceram o enredo depois que o transgressor foi preso, e devidamente autuado, narrada em detalhes pelos homens da Lei e pelas testemunhas. Mas o cine-teatro seguiu sua vida. Naquele mesmo cenário, definitivamente muito distinto da Belle Époque.