O que tinha de pior quando este que vos escreve voltou ao JB, em 1992, agora para trabalhar no Esporte, era o chamado “pescoção”. Para os leigos: quando a edição de sábado estava pronta, por volta das 21 horas de sexta-feira, começava o fechamento das páginas de domingo, atividade que invariavelmente se estendia pela madrugada. Um pavor.

Mas havia também o acompanhamento completo das corridas de cavalo, às quintas, sábados e segundas-feiras, das sete à meia-noite. Vale esclarecer aos mais jovens que não existia celular, internet e TV a cabo. Logo, a solução era ouvir os páreos pelo radinho de pilha. Uma única “estação” fazia a transmissão. O horário era alugado pelo pessoal que fazia a transmissão. A freqüência da emissora era sofrível. Assim, o som era baixo e com um chiado absurdo, e pior, a voz do comentarista quase inaudível, o que obrigava a colar o aparelho ao ouvido, para anotar os resultados.

Detalhe: há programas com 10 e até 12 páreos, e nos intervalos entre esses, de 10 a 15 minutos, a rádio tocava um punhado de músicas bregas, algumas francamente muito ruins. É preciso lembrar ainda que enquanto a edição do dia não estava fechada, tinha a barulhada normal da redação, e como se não bastasse, o editor, vez por outra solicitava “uma ajudinha” para revisar alguma matéria ou elaborar um título.

Para completar o circo de horrores, era muito difícil entrar em contato com a assessoria de imprensa do Jockey, caso não foi possível ouvir alguma informação. Na maioria das ocasiões ninguém atendia ao único telefone disponível na sede.

Havia na tela do computador um quadro pronto para ir preenchendo à medida que os páreos terminavam. Como dito, o horário era alugado, e quando os dois ponteiros do relógio se encontravam no número 12, ou seja, quando dava meia-noite em ponto, a emissora, sem dó, cortava a transmissão.

Pois para desgraça de quem anotava os resultados, era comum o último páreo chegar ao fim com dois ou três cavalos empatados na frente, o que obrigava o Jockey a recorrer ao photochart, para conhecer o vencedor da prova. Nesse momento, o comentarista recomendava ao seu repórter de raia. “Vamos rápido com isso, pois vamos sair do ar”. E se tal situação de fato ocorresse, quem estava na redação, é claro, também ficava sem saber os números finais.

Os resultados das corridas de cavalo entravam na edição final do JB – chamada no jargão jornalístico de segundo clichê – na qual eram incorporadas todas as informações – cidade, política, economia, internacional, esporte, variedades – que chegavam depois das nove, e que fechava impreterivelmente à meia-noite. Assim, quando tal horário se aproximava, o chefe da oficina começava a telefonar para a editoria de Esportes, perguntando sem muita paciência. “Cumé, essa porra de cavalo não vai acabar?”. Este que vos escreve é um sujeito de sorte. Nas duas ou três vezes em que aconteceram photocharts, a transmissão acabou antes de a emissora sair do ar, com todos os resultados devidamente divulgados.

Aqui, um parêntese: talvez os mais jovens não saibam, mas até o fim da década de 1980, os jornais abriam uma página diária – às vezes duas – para o turfe. Depois, até por que corrida de cavalo passou a ser muito associada aos jogos de azar – aquele papo de “desonrar o ser humano e destruir a sua família”, os espaços foram diminuindo.

Voltando à redação: num belo dia, o chefe de Esportes do JB reuniu o pessoal da editoria e disse que tinha duas notícias para dar, uma ruim, e outra boa. Pedimos a ruim primeiro. “Ok, o aumento que vocês solicitaram ficou para o próximo mês”. Silêncio. E a boa? “O jornal não vai dar mais resultados de turfe”, disse o cidadão, levando a turma a promover verdadeiro baile na redação.

Depois disso, veio o celular, a internet, a TV a cabo e similares, mostrando as corridas ao vivo e a cores. Mas fica sempre aquela perguntinha: por que não inventaram tudo isso antes daquele sofrimento todo?