Como dito em capítulos anteriores, o prédio da Tribuna da Imprensa, na Rua do Lavradio, bairro da Lapa, é uma construção do Século 19, que abrigava, entre muitos personagens de origens variadas, um punhado de ratos.

Os roedores, no entanto, só circulavam na madrugada, quando não havia ninguém por lá. Mas eis que numa tarde de verão, sufocado quem sabe pelo forte calor de 40 graus, ou incomodado pela fome, um deles saiu da toca e resolveu dar um passeio pela redação do jornal.

Era um rato profissional, com inglês fluente e MBA em administração de empresas na Escócia. Do tamanho de um gambá, bigode imenso, embora bem cortado, focinho aguçado, cauda comprida e charmosa, apresentava-se como um verdadeiro executivo: terno bem cortado, gravata italiana, sapatos de cromo alemão e pasta 007 de couro legítimo.

A criatura iniciou o seu magical mistery tour pela redação logo depois do almoço, naquela hora em que as pessoas ainda estão digerindo o alimento, um tanto preguiçosas. Mas assim que o alerta foi dado, houve uma mobilização geral, gritos de pavor, todos procurando um abrigo, o desespero total. Quando o intrépido roedor ficava de pé, apoiado nas patinhas traseiras, era deveras arrepiante. Tanto que um veterano homem de imprensa, do alto de seus 80 anos, e que vivia se queixando de dores nas pernas, escalou uma das mesas com extrema facilidade, em questão de segundos. Quando alguém gritou que o bravo mamífero, com seus dotes de alpinista, poderia subir onde quisesse, o velho jornalista ainda conseguiu buscar forças no seu interior, levantando uma pesada Remington para arremessar na direção do intruso.

O rato de fato semeou o pânico, pois caminhava rapidamente de um canto para o outro, gritando palavras de ordem, ameaçando a todos, desafiando quem ousasse pensar em capturá-lo ou dar-lhe fim. Mesmo o folclórico contínuo Napoleão, contador de histórias, metido a valente, confessou seu receio.

Até que em dado momento, um redator ganhou coragem suficiente para fugir na direção do corredor, com o nobre objetivo de solicitar por socorro. Eis que segundos depois surge na redação o administrador geral, aquele mesmo que havia liquidado seis pombos que moravam no telhado do jornal com várias balas. O homem apareceu de arma em punho, perguntando pelo roedor, instalando de vez o pavor, pois bastaria um tiro a esmo para ferir alguém.

Naquele momento, havia gente abrigada – ou espremida – em todo lugar, na sala de telex, no aquário da chefia, nos banheiros, esses os felizardos que conseguiram escapar ao primeiro alerta, porque o resto da galera permanecia sobre cadeiras, mesas e tábuas de diagramação. E as pessoas berravam quando o valente administrador apontava o cano do 38 para o lugar onde elas estavam. Enfim, um circo de horrores.

Mas vale explicar que o piso da redação, naquela época, era de madeira, e tinha falhas flagrantes nos cantos onde os cupins já haviam feito algum serviço. Pois se o garboso mamífero penetrou na redação graças a um desses buracos, seria por outro deles que iria embora.

Assim, quando o veterano homem de imprensa, já totalmente abatido em seu moral, ameaçava sofrer um infarto, eis que a vil criatura, numa de suas carreiras easy rider acabou por escorregar sem freio, desaparecendo sem deixar rastro, devolvendo a paz aparente ao ambiente.

Tivesse o roedor surgido em horário de fechamento, lá pelo fim da tarde, o jornal não circularia no dia seguinte. Assim, houve tempo para que a situação voltasse gradualmente ao normal, o que só o ocorreu de fato depois que dois pedreiros começaram imediata e improvisadamente a fechar as fendas com cimento, uma exigência do coletivo, sob a justa alegação de insalubridade no serviço.

Como se deduz, nenhum tiro foi disparado, e no fim das contas, salvaram-se todos. Mas é fato que o rato, até onde se tem conhecimento, também escapou ileso, provando que era mesmo profissional na sua nobre atividade de espalhar o terror.