No fim de semana anterior a um feriadão de 7 de setembro, um supermercado que ocupava um quarteirão quase inteira na Tijuca, anunciou em folhetos encartados nos principais jornais do Rio um desconto de 50% no valor do engradado de cerveja. Ou seja, 24 unidades pelo preço de 12. Também fez propaganda no rádio e na TV.

A loja estava sendo reinaugurada, e prometia festa, com bandinha de música e balões coloridos. No Jornal do Brasil, onde este que vos escreve trabalhava como repórter, havia o melhor pauteiro de todos os tempos, Luciano de Moraes, que tinha o faro da notícia. E que não deixou passar o fato em branco, percebendo que poderia dar bode – que era, aliás, o seu apelido.

Pois não deu outra. Quando o supermercado abriu as portas, às nove da manhã de segunda-feira, a multidão já ocupava todos os espaços próximos, provocando enorme engarrafamento na Mariz e Barros e ruas adjacentes. Na ânsia de entrar, a massa humana derrubou o que havia pela frente, quebrando portas e vidros, e ameaçando funcionários, dado que os seguranças, que não poderiam utilizar armas, ficaram impotentes diante da loucura.

Para completar, a direção da casa, convencida de que ainda poderia controlar o caos, decidiu que a loja só venderia um engradado para cada freguês, levando o povo a invadir o depósito. Vale ressaltar, como este repórter apurou antes da abertura da loja, que havia do lado de fora uma grande quantidade de comerciantes, donos de botequins e restaurantes, além de ambulantes profissionais.

E logo surgiram discussões e brigas intermináveis. Tinha gente de caco de vidro na mão, pronta para retalhar o semelhante. Um musculoso quis dar uma de valente e tomou um coice. Uma jovem senhora, julgando que por sua condição seria respeitada, resolveu encarar o tumulto, e acabou levando tapa no rosto. Um indivíduo alto e magro foi tirar satisfações com um garotão e tomou um tombo formidável.

De acordo com o gerente, havia um estoque de duas mil caixas de cerveja, mas várias se perderam no quebra-quebra, e outras tantas foram roubadas. Diante da desordem, e da possibilidade de surgir uma vítima fatal, só restou ao pessoal do supermercado chamar a polícia. E como demorou a fazê-lo! Já havia automóveis avariados no estacionamento. E no entorno da cena, outra multidão, que se lixava para a promoção, mas que mostrava grande interesse em ver o circo pegar fogo, incentivando aos gritos a pancadaria.

Quando o bafafá atingia o auge, chegou o Batalhão de Choque, com cerca de 40 soldados. E ainda houve quem o enfrentasse. Abusando da energia, ali absolutamente necessária, a polícia entrou na loja, fez a varredura, e meia hora depois conseguiu fechá-la.

Fotógrafos fizeram a festa. Restou, do lado de fora, muita gente machucada. Escoriações generalizadas. Um PM exibia um corte na altura do pescoço. Um sexagenário quebrou a perna. Outro cidadão, bem mais jovem, o braço direito. Suportando a dor, lamentava. “Foi a cerveja mais cara da minha vida”. Fortões revoltados, porque ficaram de mãos vazias, sem um único engradado, atiraram um carrinho – um carrinho de supermercado – numa Rádio-Patrulha que estava largada no pátio.

Ambulâncias de hospitais próximos foram convocadas. A Polícia Civil também apareceu. O delegado concluiu que seria preciso abrir inquérito. “É de uma completa insanidade fazer uma promoção dessas sem mínimo de organização e prevenção. Há casos de lesões corporais e outros mais graves. É preciso apuração para conhecer os culpados”, garantiu.

Ânimos serenados, o local parecia um teatro de guerra. O valor dos prejuízos não foi divulgado. Na delegacia, proprietários de automóveis avariados aguardavam para prestar queixa. Exigiam ressarcimento por vidros espatifados e latarias amassadas. Dois advogados, representando o supermercado, prometiam estudar cada caso, e pagar indenização a quem conseguisse provar que a empresa era a responsável por danos sofridos. E o inquérito começou a andar.

Mas o tumulto já estava pronto para ser contado. Deu primeira página. Bode, o pauteiro, tinha razão.