Vocês sabem onde é a Praça Padre Souza, em Benfica? Não importa. O fato é que no fim da década de 1980 um menino do Arará encontrou uma peça semelhante ao ouro, após fazer um pequeno buraco na terra fofa. Cavou um pouco mais e surgiram outras duas, do mesmo tamanho, e que também brilhavam intensamente quando expostas ao sol.

Eram pedaços de uma pulseira. Na dúvida, dado que poderia ser apenas uma simples bijuteria, a mãe do pimpolho levou a um comprador conhecido, dentro da própria comunidade, que avaliou e confirmou: era de fato o metal desejado. Pagou o valor estimado, e de olho grande na possibilidade de faturar muito mais, tratou de espalhar que havia fartura de ouro na praça, que tem o tamanho de meio quarteirão. E que num piscar de olhos se transformou numa Serra Pelada carioca.

De repente, foi chegando gente de todos os lados, com pás, picaretas, enxadas, carrinhos de pedreiro, enfim quase todo o material necessário para a escavação – quase, porque ninguém ali tinha dinheiro para comprar um detector.

O menino “bamburrou” numa sexta-feira. Este que vos escreve começou a reportagem na manhã de sábado. Loucura total. O povo removia a terra e não encontrava nada. Mas não desistia. A esperança de “enricar” estava evidente no rosto de cada um. “Arranco dez quilos daqui e monto um barraco de luxo”, disse um nordestino de sorriso largo, e de um dente só, que recrutou a família inteira, e que garantia ser “um cabra de sorte”, porque uma vez, no Ceará, ganhou “um rádio numa rifa de obra”.

No final daquela manhã, numa praça completamente loteada, e já bastante revirada pelos “garimpeiros”, começaram as desavenças, previsíveis quando há disputa por algo de valor. Dois indivíduos entraram em luta corporal por um pedaço de terra. Pouco depois, uma senhora armou um barraco porque “essa aí vagabunda invadiu o meu lote”. Puxou os cabelos da vizinha, que reagiu, e saíram tapas e sopapos para todos os lados.

Diante do quadro, a delegacia da área enviou uma equipe para o local, e PM pôs uma “joaninha”, com dois soldados, de plantão. Era preciso organizar a bagunça. No princípio, a polícia só observou, para impedir pancadaria. Mas quando os jornais publicaram as primeiras matérias sobre o fenômeno, alguém da Prefeitura lembrou que existem normas para tal exploração, incluindo solicitação ao Departamento Nacional de Produção Mineral. E decidiu que seria preciso suspender as atividades do, digamos, garimpo.

No entanto, não foi tão simples assim, pois o povo resolveu resistir, provocando um conflito que só terminou com a chegada do Batalhão de Choque. Na prática, não havia necessidade de violência, pois ninguém conseguia encontrar absolutamente nada sob a terra, e em pouco tempo “a Serra Pelada dos pobres”, como disse o repórter de uma emissora de rádio, seria naturalmente desfeita.

No fim das contas, o que se viu foi uma praça de cabeça para baixo, e o desalento de uma comunidade que tanta esperança alimentou, diante da possibilidade de enriquecer da noite para o dia. Hoje, 30 anos depois, o Arará é ainda mais pobre do que naquela época.