A primeira fase da Copa do Mundo terminou, com a eliminação de metade dos participantes, deixando algumas lições, notadamente no quesito comportamento, dado que não mostrou praticamente nenhuma novidade no plano tático, e nesse aspecto até negativo, como o futebol atrapalhado da Alemanha, que custou a sua eliminação.

É evidente que os treinadores do Brasileiro estão observando, visando aproveitar, ou descartar, em suas equipes, o que viram até aqui, nos dois terços de campeonato que vêm pela frente a partir de 18 de julho.

Maurício Barbiéri andou viajando com a família. Afinal, ninguém é de ferro. Mas também deve ter dado a sua olhadinha. Mesmo assim, vamos passar adiante o que ocorreu, por ora, para reflexo da Comissão Técnica e dos rubro-negros em geral, lembrando que ninguém é dono da verdade, e que os conceitos aqui emitidos podem e devem ser objeto de discussão.

É preciso ressaltar ainda que algumas seleções não apresentaram nada de bom ou tudo de ruim. E que não merecem, é claro, qualquer menção.

– Alemanha

Já foi possível perceber, desde a Eurocopa, quando caiu diante da França nas semifinais, que o processo de renovação iniciado após o Mundial de 2014 não era eficiente. Muita mudança e pouco acerto. Além disso, foi sempre um time sem entusiasmo nas Eliminatórias para 2018, e principalmente nos amistosos, o que levava o torcedor à irritação. Parece que o treinador Joachim Löw perdeu a mão do grupo. Como se não bastasse, sofreu a maldição da Copa das Confederações. Quem ganha a competição, se estrepa no Mundial. Assim, o jogo desequilibrado que mostrou na Rússia representou apenas um reflexo de tudo isso.

– Argentina

Doctor Jekyll e Mister Hide, a exemplo de Messi, o seu maior jogador. Qual a face real de ambos? O resto da Copa dirá.

– Bélgica

A exemplo da Inglaterra, sua companheira de grupo, fez duas partidas convincentes, exibindo ambas qualidades ofensivas inquestionáveis para o nível atual. Mas vão cair numa das próximas fases, das oitavas ou quartas em diante, porque fizeram a bobagem de escalar os chamados times alternativos, a grande praga do futebol de hoje, no terceiro jogo. É inevitável. Isso quebra o ritmo, diminui a concentração no objetivo, notadamente numa competição de tiro curto. A sorte da Bélgica é que vai enfrentar o Japão.

– Brasil

Só conseguiu empolgar a TV Globo. Pelo menos fez o que se esperava, garantindo sem sustos a vaga na próxima fase. Mas repetiu dois erros que pareciam extirpados no processo Tite: o choro patético e convulsivo de alguns atletas após vitórias sem muita emoção, e a insistência em administrar resultados, o que denota soberba e a falta de apetite – esse sempre necessário numa Copa – e que custou, por exemplo, o empatezinho com a Suíça.

– Colômbia

Três jogos, três partidas diferentes, a primeira péssima, a segunda excelente, e a terceira razoável. Quando aposta na individualidade, como ocorreu contra a Polônia, vai bem das pernas. Quando resolve bater nos adversários, é uma tragédia. Mas tem um bom time e um treinador experiente o suficiente para saber escolher a melhor estratégia.

– Coreia do Sul

A vitória sobre a Alemanha mostrou que continua sendo possível o pequenino derrubar o gigante, essência do interesse eterno e crescente em todo mundo sobre esse jogo fantástico chamado futebol.

– Croácia

Uma seleção correta, que faz o seu feijão com arroz em maior ou menor intensidade, dependendo da necessidade, utilizando com precisão a qualidade de cada um dos seus jogadores, daí as três vitórias, bem tranqüilas, por sinal. Resta saber se o passeio que deu na Argentina foi fruto da sua própria capacidade ou das deficiências da adversária.

– Dinamarca

Não gerava muitas expectativas. Assim, também não criou frustrações. Pelo menos não dependeu exclusivamente de Erikssen, como mídia e público imaginavam.

– Espanha

Passou à segunda fase, mas esteve longe do bom futebol, daí os empates com Portugal e Marrocos. O “tiki-taka” ficou manjado, alguns craques envelheceram, e ainda não encontrou um substituto perfeito para o estilo que a levou ao título mundial em 2010.

– França

Exibições medíocres que frustraram até aqui todas as expectativas que criou. Venceu dois adversários frágeis na conta do chá e fez jogo de compadres com a Dinamarca.

– Inglaterra

A exemplo da Bélgica, sua companheira de grupo, fez duas partidas convincentes, exibindo ambas qualidades ofensivas inquestionáveis para o nível atual, mas vão cair numa das próximas fases, oitavas ou quartas, porque fizeram a bobagem de escalar os chamados times alternativos, a grande praga do futebol de hoje, no terceiro jogo. É inevitável. Isso quebra o ritmo, diminui a concentração no objetivo, notadamente numa competição de tiro curto.

– Irã

É a melhor seleção da Ásia. Mas o culto ao jogo defensivo, que sugere respeito excessivo aos adversários, eliminou o time da Copa. Quando precisou do resultado contra Portugal soube ser eficiente. E só não obteve a vaga porque perdera pontos irrecuperáveis jogando para trás em partidas anteriores.

– Islândia

O jogo baseado no equilíbrio entre os três setores, que fez tremendo sucesso na Eurocopa 2016, perdeu a força, por razão quase óbvia. Após sair invicta diante de Portugal, Hungria, Áustria e Inglaterra, na competição continental, ganhou o respeito de todos os adversários, que passaram a observá-la o suficiente para montar estratégia capaz de superá-la, notadamente a sua capacidade defensiva. Além disso, os atletas têm pouca habilidade, o que impede o time de sair de situações embaraçosas quando o coletivo não funciona.

– Japão

O desmiolado treinador Akira Nishino fez um punhado de mudanças para a terceira partida, quando decidiria a vaga para a próxima fase, e deve ter um santo protetor muito forte, pois mesmo perdendo de forma bisonha para a Polônia, já eliminada, conseguiu seguir adiante. Só não cairá diante da Bélgica se a zebra estiver sob o efeito de estimulantes,

– México

Mostrou ótimo futebol contra a Alemanha, dosando defesa e ataque, o que fez acreditar que era absolutamente superior aos outros dois times do grupo. Daí, acabou tomando um golzinho da Coreia do Sul, e outros três da Suécia, o que pode na prática ter tornado a equipe perigosa para o Brasil. Pois, quem sabe, o susto de uma quase desclassificação não levará a retomar a seriedade da estreia?

– Portugal

Nos dois primeiros jogos mostrou que é de fato dependente de Cristiano Ronaldo. E na terceira partida deixou evidente que nem o grande craque, vez por outra, é suficiente para resolver os problemas do time, o que é assustador para o próximo compromisso.

– Rússia

Entrou motivada por jogar diante de sua torcida, e cumpriu a obrigação de vencer Arábia Saudita e Egito, deixando a impressão que havia se recuperado dos vexames consecutivos na Copa das Confederações e nos amistosos. Mas a derrota de 3 a 0 para o Uruguai trouxe de volta o medo do fracasso no Mundial caseiro. As oitavas dirão qual é afinal a verdadeira Rússia, a das goleadas nos adversários frágeis, ou o time que treme diante dos grandes.

– Suécia

O grupo está fechado e já cumpriu o papel de mostrar ao marrento Ibrahimovic que não precisava dele para ir adiante com as próprias pernas. Na realidade, é uma incógnita, lembrando que tem uma longa tradição em Mundiais, o que poucos sabem. Participou de 12 das 21 edições. Foi vice em 1958, terceira colocada em 1950 e 1994, quarta colocada em 1938 e quinta em 1974. Faz um jogo correto, pois sabe explorar as suas limitações, e só perdeu da Alemanha porque se apequenou besta e desnecessariamente.

– Suíça

Uma xerox autenticada das Copas anteriores. Incrível é o Brasil não ter conseguido vencê-la.

– Uruguai

Um jogo baseado no equilíbrio entre os três setores, que ao contrário da Islândia da Eurocopa, privilegia o futebol ofensivo, até porque tem dois artilheiros, Cavani e Suarez. Jogando esse futebol certinho, tem chance de ir bem adiante.

E afinal? O que o Flamengo pode aproveitar o que aconteceu de útil até aqui?

1) O ímpeto agressivo de Bélgica e Inglaterra nos dois primeiros jogos, ou seja, entrar para decidir de uma vez por todas, principalmente contra equipes mais frágeis.

2) O jogo baseado no equilíbrio entre os três setores, que privilegia o futebol ofensivo, como faz o Uruguai, que mostra, além disso, um espírito de luta notável até o apito final.

3) A exemplo da Croácia, utilizar com precisão absoluta a capacidade de cada um dos seus jogadores.

E afinal? O que o Flamengo pode descartar o que aconteceu de ruim até aqui?

1) A dependência de um único jogador, pois como mostraram Argentina e Portugal, embora raro, os cracaços também têm seus dias de perna de pau.

2) Não privilegiar o jogo defensivo em excesso, tendo alguma capacidade para atacar, como o Irã, e a exemplo do que o próprio Flamengo fizera contra o Atlético-MG em Belo Horizonte, apesar do resultado positivo que obteve por lá.

3) Evitar o choro patético e convulsivo dos jogadores após vitórias sem muita emoção, embora ninguém tenha visto o Flamengo proceder assim. Deixa isso para a seleção.