Mamoudou Gassama escalou quatro andares de um edifício em Paris, em apenas 36 segundos, para salvar uma criança. Alcançou o objetivo. Ganhou a cidadania francesa e um emprego no Corpo de Bombeiros da cidade. O Flamengo precisa superar mais 29 rodadas para conquistar o título brasileiro.

Será difícil e até perigoso fazê-lo com a velocidade e a destreza do imigrante de Mali. Além disso, e apesar de ocupar a liderança isolada do campeonato, o time ainda não tem o controle absoluto de suas ações, a exemplo do alpinista africano. Assim, corre o risco de escorregar e sofrer uma queda, que dependendo das circunstâncias, pode ser fatal.

Logo, será necessário subir um pavimento de cada vez, de forma fria e calculista, tendo o cuidado, no entanto, de descartar a impassibilidade que provocava protestos agressivos de sua torcida.

É preciso lembrar que Mamadou, na sua fantástica corrida contra o tempo, atravessou quatro andares idênticos, e que o Rubro-Negro terá pela frente adversários com propostas e estilos diferentes, como tem sido até aqui.

Para não ir muito longe, vamos aos mais recentes. O Atlético-MG, jogando em casa, diante da sede habitual de sua torcida, verdadeira obsessão, em vê-lo derrotando o Flamengo, foi todo ao ataque, pressionou absurdamente, e acabou tomando um gol ao cometer um erro grosseiro. O Bahia, no Maracanã, fez exatamente o contrário, armou uma retranca exagerada, e não resistiu ao primeiro tempo. E o Corinthians, também cauteloso, mas com poder de contra-ataque, perdeu ao acreditar, no fim do jogo, que o empate até poderia ser um bom resultado.

Talvez seja cedo – e perigoso – para tecer elogios. Ao contrário de Mamoudou, que não traçou qualquer estratégia para salvar a pequena criatura, sem calcular os obstáculos que teria no caminho, é fato que o Flamengo soube enfrentar cada um dos seus adversários com o antídoto necessário. Andou até exagerando na retranca em Belo Horizonte. Mas ganhou o jogo.

E agora? De que maneira virá o Fluminense em Brasília? Como visto, Mamoudou não pensou duas vezes ao ver o menino em apuros. Na sua escalada quase suicida, havia sobretudo a coragem e o desejo de dar a mão ao semelhante. Daí, talvez, o sucesso de sua empreitada.

No Fla-Flu há diante do Rubro-Negro um adversário em ascensão, uma centenária e acirrada rivalidade regional, um obstáculo enfim que possuidor de cérebro e pés para derrubar quem tentar alcançar. E disso – como chegar ao 10º pavimento de um edifício chamado Brasileiro – que nos ocuparemos até quinta-feira.