Em tempos idos, até a década de 1980, muitos jornalistas iniciavam a carreira em Editoria de Polícia. Pois a 17ª Delegacia sempre tinha ocorrência, dado que atendia parte de Benfica, da Praça da Bandeira, o Caju, e o bairro de São Cristóvão, englobando o Estádio de São Januário, as comunidades da Barreira do Vasco, da Mangueira e do Tuiuti, a Feira de Tradições Nordestinas, o Jardim Zoológico e a Quinta da Boa Vista, entre outros.

Mas numa manhã fria de inverno surgiu um fato que se não inédito, era no mínimo inusitado, até pela marra do personagem em questão. Uma ligação da DP informava sobre a prisão de um charlatão, apanhado em flagrante em sua “clínica”, na Rua Sinimbu, após a denúncia de um morador, que desconfiara do “jeitão esquisiãto” do elemento, durante uma “consulta”.

Ao chegar no distrito, como se dizia antigamente, encontrei o cidadão sentado numa poltrona, vestido de branco da cabeça aos pés, com o estetoscópio pendurado ao pescoço, exibindo ao delegado o seu “diploma” da Faculdade de Ciências Médicas da UFRJ, uma das mais conceituadas do Rio. Ao lado, pelo menos cinco pessoas moradoras do local, todas “surpresas” com a detenção do “Doutor Esteves”, que atendia no endereço citado havia “pelo menos 10 anos”, como informou a “clientela”.

Uma dessas testemunhas disse que utilizou os serviços do impostor “em várias ocasiões”, porque além do “zelo com a limpeza do consultório, também fazia sempre um preço muito em conta”. Outra delas, garantiu. “Agora tá se vendo que o cara é um sete um, mas não se pode negar que o trabalho dele é bom, até porque eu não sei de ninguém aqui do bairro que tenha tido problemas com as receitas que deu”. Uma senhora discreta afirmou que “gostava dele porque o ar de médico e o currículo que tinha davam confiança prá gente”.

De fato, o charlatão também exibia nas paredes de sua sala outros “diplomas de conclusão”, um deles em “Biologia e Ciências Naturais”, que confessou mais tarde, lhe permitiu lecionar em cursinhos para vestibular, e até participar como especialista em congressos no exterior, como provou com muitas fotos, na Bélgica, na Holanda e na Suíça, queiram crer, pelo menos essas verdadeiras.

Ao ser formalmente apresentado à imprensa, enquadrado no artigo 282 do Código Penal, que fala de exercício ilegal da medicina, o indivíduo confessou que havia comprado o seu “diploma” de um “corretor”, que segundo ele, “parece que já morreu faz tempo, e de doença”, completando, de forma irônica. “Se eu tivesse cuidado dele, isso é claro, não teria acontecido”.

Ao ser perguntado sobre a sua escolha, o “doutor” explicou, de maneira quase didática, que “desde criança sempre teve enorme vocação para essa profissão, na minha visão a mais bonita de todas”. Contou também, o nosso personagem, que vez por outra abria a “clínica” para atendimento gratuito. “Ficava sempre lotada, com fila na porta, muita gente humilde, sabe, que não tem mesmo como pagar”. E tratou de criticar o governo, com uma pose admirável, deixando escapar a veia socialista. “Se o Estado tivesse uma política eficiente para a saúde, hospitais decentes, remédios prá todo mundo, esse povo não sofria desse jeito”, filosofou.

Em seguida, garantiu que não temia a reação dos “colegas”, porque “nunca prejudiquei nenhum deles, sujando a honra de um jaleco, ou seja, manchando a profissão de vergonha. O meu currículo é bastante razoável. Além disso, os anos de profissão e os elogios da clientela são a prova de que o meu trabalho é de primeira”. Para encerrar, perguntei ao “Doutor Esteves” se ele seria capaz de fazer uma cirurgia. Pois o homem não se fez de rogado. “Não é minha área. Não sou de invadir a especialidade do próximo”, respondeu.

Antes de ser encaminhado ao xadrez, o nobre charlatão ainda questionou o delegado. “É cela comum? Eu tenho diploma, esqueceu disso doutor?” O sujeito era mesmo um humorista. Mas foi encarcerado. É provável que o tempo por lá tenha sido curto. Um bom advogado poderia soltá-lo rápido. Mas a história valeu, sem dúvida, uma boa matéria.