O maior contínuo da história foi Napoleão, da Tribuna da Imprensa, mas foi na redação do mesmo jornal que a curiosa criatura teve o seu reino ameaçado. O cidadão tinha nome de príncipe, Giancarlo, assim mesmo, com a grafia italiana, e pose de nobre, não só no comportamento, dada a sua educação, mas também na elegância, pois só vestia roupa de grife, e de bom gosto. Como se não bastasse, as moças da redação consideravam-no um negro bonito e charmoso, capaz até de despertar suspiros.

De fato, ninguém diria que trabalhava como auxiliar de serviços gerais, como indicava a sua carteira profissional. Avaliá-lo como figura folclórica por tudo isso, no entanto, seria juízo de valor equivocado, pois tais predicados estão ao alcance de todos, mesmo que o salário seja curto.

Assim vale dizer que Giancarlo ganhou destaque pelo conjunto da obra, ou seja, o porte, o cavalheirismo e o requinte aliados à sua prosa excêntrica, que na prática deixavam claro como o preconceito é fato neste país, no qual é necessário um manual de sobrevivência.

Este que vos escreve exercia na época a função de secretário de redação, cargo que obrigava a administrar o chamado pessoal de apoio – contínuos, teletipistas, arquivistas e motoristas. Pois no primeiro dia de labuta, uma segunda-feira de verão, o nosso personagem fez a sua apresentação, de terno e gravata. Os sapatos brilhavam. Um luxo só. E ao ser informado de que não tinha a necessidade de trabalhar com tanta formalidade, foi logo mostrando a sua visão do mundo. “Doutor, ninguém respeita preto. Mal vestido, então, nem se fala. Se o senhor me dá algum serviço, e se eu tiver assim, faço mais rápido, porque pensam que eu sou alguém importante. Ninguém me pede documento. Aprendi quando estava num escritório de advocacia. Chegava num cartório e iam logo me atendendo. É assim que funciona”, esclareceu.

Aos poucos, a criatura foi contando da sua vida. “Sou do Boaçu, São Gonçalo, conhece? Acordo sete da manhã, ponho a minha beca, deixo as crianças na escola, e aí depois é só trabalho”. Sugeri que de lá até o jornal tinha certa distância, e sugeri que ele devia gastar muito com passagens, ônibus, cantareira, ônibus, ida e volta. E eis que veio uma revelação. “Não ando de barca, tem muito 171 pregando. Venho pela ponte. E não pago transporte não. Olha aqui, tenho uma carteira de juiz federal. Mostro pro trocador e vou passando na roleta. E ainda me chamam de doutor”. “Carteira de juiz federal? Você pode ser preso, rapaz. E ninguém te disse que juiz não anda de ônibus? Ninguém pergunta se você não tem carro e motorista dado pelo Estado?”, retruquei. “Onde eu moro só tem gente ignorante. As pessoas têm pavor de autoridade. É só exibir um documento assim que nêgo põe o galho dentro. Vai lá que eu sou um juiz de verdade… Aí nêgo fica quieto. Outro dia um cara que conheço de vista até me pediu prá que ajudasse a tirar uma certidão. Mandei ele passar na minha jurisdição. E ele nem me perguntou onde era. Sujeito burro. Pois é, como te digo, se duvidar, com a minha estampa, quem dá voz de prisão sou eu”, explicou, completando. “Na minha vizinhança, digo que sou engenheiro. Tem muito vagabundo por lá. E juiz, ainda mais federal, o senhor sabe, podem querer me justiçar. Já preto engenheiro, que anda de terno, ninguém mexe, sabe?”, garantiu.

A tal “carteira” era um esculacho. A foto do cidadão, carimbo do Poder Judiciário, as palavras Juiz Federal em relevo, e a assinatura de um tal “corregedor responsável”, ilegível, é claro. “Um sujeito metido me perguntou quem era. Falei prá ele tomar cuidado, que o corregedor é o cara que manda geral, até mais que prefeito e governador”, relatou.

Aos poucos fui notando que Giancarlo não se misturava muito com os outros contínuos, que não demoraram a apelidá-lo de Lorde, o que o deixava irritado, embora evitasse qualquer conflito. Numa ocasião, perguntei ao cidadão porque não interagia com os colegas. “O senhor já ouviu os assuntos dos caras? Mulher alheia, jogo do bicho, pagode, futebol, um nível muito baixo. Gosto de conversa mais espiritual. Penso, logo existo, entendeu? Além disso, preto quando fala demais vira fofoqueiro. Preto não deve se expor muito, entendeu?”. Logo, questionei se estava ligado a alguma igreja. “Não, não dou dinheiro nem prá padre, nem prá pastor, tudo ladrão, o que ganho é prá roupa boa e prá família”.

Depois de um mês, o Lorde começou a chegar mais tarde. Além disso, quando saía para cumprir uma tarefa, demorava demais para voltar. Uma vez fiz uma breve reclamação. “O trânsito aqui no Centro tá cada dia pior. Nêgo não respeita nada. Daí fica essa confusão”, tentou justificar. Logo, os contínuos e os motoristas vieram me dizer que o fraco dele era mulher. Saía do serviço e tinha sempre uma delas aguardando. Parece que tinha uma lábia irresistível.

Um dia, cerca de três meses depois da sua admissão, a gerência do jornal veio me avisar que Giancarlo havia sido demitido, pois o cartão de ponto dele contava mais de 20 atrasos. E que houve uma queixa de que andou pedindo dinheiro emprestado aos funcionários da oficina. Pegou e não pagou. Nunca mais vi a criatura.

Mas é fato que o discurso dele continua aplicável, nesse país carregado de preconceito racial, e no qual cada um tenta se virar para não morrer de fome, à exceção dos políticos, é claro.