Numa bela manhã de sol de verão, em pleno domingo, este que vos escreve, então jornalista do já decadente Última Hora, foi designado para fazer mais uma reportagem inusitada, essa na Praia do Flamengo, perto da Rua Silveira Martins.

Vamos aos fatos. Uma jovem senhora chegou ao local, e começou a fazer o montinho para esticar a toalha, quando surgiu da areia, segundo ela, “uma grande mão preta dura como pedra”. O seu espanto produziu um grito histérico que chamou a atenção imediata de todos. Dois rapazes se aproximaram, remexeram um pouco mais com os pés, o suficiente para perceber que estava enterrado ali, em sua plenitude, o corpo de um homem negro, com as feições ainda compostas, sugerindo um sepultamento recente.

Quando desembarquei por lá, a PM já havia cercado a área, e tinha dificuldade para conter os curiosos – vai entender porque as pessoas trocam tudo de bom que há numa praia para ficar de olhar fixo num sujeito morto. Pior: alguns soltavam piadinhas de mau gosto, inclusive de cunho racista, e um cidadão de longas barbas brancas gritava que aquilo era “coisa do demônio”, dando ao fato o aspecto geral de um circo mambembe.

Logo depois, chegou o Corpo de Bombeiros, para arrancar de vez o cadáver da sua cova improvisada, e na sequência o pessoal do Instituto Médico Legal, para o serviço de praxe. Enquanto os profissionais trabalhavam, a jovem senhora que descobriu a “grande mão preta”, que nunca desejou ser protagonista da história, se queixava de ter perdido o dia de folga “por causa de um pobre-diabo”. A mesma chegou a confessar que ao tocar no que chamou de “presunto” pensou tratar-se de “um despacho”, e que a única certeza era a de que não poderia atingi-la, pois não estava “devendo nada a ninguém”.

Outra mulher, esfarrapada e visivelmente alcoolizada, ao melhor estilo barraqueira, falava sem parar, tentando esclarecer quem era o falecido. Pois ele estava descalço, mas vestido com uma camisa vermelha, do Bloco Cachorro Cansado, e uma bermuda branca, de cujos bolsos saíram meia dúzia de trocados, algumas moedas, e acreditem, um vidrinho de colírio.

Os peritos explicaram que a morte havia sido provocada por “pancadas no crânio por objeto contundente”, algo próximo de um taco de beisebol, e que a morte ocorrera por volta das sete horas da noite do sábado. E em dado momento, a polícia enfim resolveu dar atenção ao que dizia a mendiga tagarela, pois embora a sua narrativa fosse confusa, ela parecia saber de fato quem era o morto. “Ele toma conta de uns barcos lá pros lados do aeroporto. E tem fraco pela bebida, por isso arranja confusão, e de vez quando, quando tá ruim da cabeça, leva surra, porque perturba muito. Anda e dorme por aí, no parque, mas não sei o nome dele não”, contou.

Pois é. O Parque do Flamengo, criado na década de 1960 por Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, é uma área imensa, bela em dias de sol, mas sem lei depois que a noite cai. Só desavisados passam por ali quando escurece.

Casos como esse ocorrem diariamente no Rio, como em qualquer cidade grande do mundo, principalmente em países mais pobres. E os jornais só se interessam em fazer cobertura quando o cenário é nobre, e há algo próximo do inusitado, que seja efetivamente capaz de despertar a atenção do leitor. Fosse num subúrbio, num contexto de pobreza, ninguém tomaria conhecimento.

Por volta de uma da tarde, o cadáver aqui descrito embarcou no rabecão e seguiu para o IML. As duas mulheres, a jovem senhora e a tagarela, foram dispensadas. E a polícia, convencida de que o falecido não tinha qualquer importância, comunicou o fato à delegacia da área, e deu a questão provisoriamente por encerrada. Se alguém da família reclamasse o cadáver o caso seria reaberto. E o autor continuou desconhecido, e é claro, impune.

De qualquer maneira, a foto na primeira página de UH ajudou a vender a edição dia.